Eu acreditei piamente que as pessoas batiam panelas e se vestiam de verde-amarelo, enchendo parques e avenidas, contra a corrupção. Acreditei ingenuamente que estavam acima de partidos e ideologias em luta pela justiça, pela transparência e pela punição aos saqueadores da nação.

Eu acreditei francamente que seriam coerentes e fariam o mesmo cada vez que uma situação equivalente se apresentasse. As decepções não tardaram.

Apareceram denúncias pesadas contra o presidente Michel Temer. Nenhuma panela bateu. Surgiu a mais impressionante série de provas gravada contra um senador, Aécio Neves. Silêncio absoluto. Nenhuma camiseta da CBF nas ruas. Tudo vazio.

Dilma Rousseff foi derrubada pelos eleitores de Aécio Neves. Por que panelas não bateram e não batem agora que a máscara do tucano caiu? Por que panelas não ecoam agora que Michel Temer foi julgado, e salvo, pela segunda na Câmara dos Deputados sob graves acusações de corrupção? Vale lembrar que Dilma não foi derrubada sob acusação direta de qualquer ato de corrupção, mas pelas pedaladas fiscais. O que é mais grave: pagar compromissos governamentais com adiantamentos de bancos públicos sempre reembolsados ou receber propina de empresários?

Os senadores que salvaram Aécio são os mesmos que afundaram Dilma em nome da moral. Por que as panelas não batem agora? Onde andam os jovens líderes de movimentos ditos apartidários em defesa de um Brasil limpo, novo, livre do cancro de políticos ladrões?

Eu acreditei realmente que a classe média brasileira não se deixaria novamente manipular, como acontecera em 1964, e que trataria todos da mesma maneira, com o mesmo rigor e a mesma convicção. O que tem feito Temer para merecer leniência? Tentou liberar uma reserva na Amazônia para a exploração total de minérios. Resolveu proteger o trabalho escravo. Não cobra uma dívida de 29 bilhões de ITR de ruralistas. Aprovou uma reforma trabalhista que precariza a vida da plebe. Vai insistir numa reforma da Previdência que levará muitos a morrer sem se aposentar. Corta verbas da pesquisa e da educação. Temer é o presidente dos sonhos do mercado. Que interessa a corrupção?

O STF prendeu Delcídio Amaral e afastou Eduardo Cunha sem consultar o parlamento. Primeiro deixou Cunha derrubar Dilma. Era útil. Quando chegou no queridinho Aécio, devolveu a decisão para o Senado, que tratou de salvar o parceiro tornando-se definitivamente a instituição mais desmoralizada do país e talvez do mundo. O STF provou que nossa justiça tem lado, classe e ideologia. Quando interessa, respeita a Constituição. Quando convém, atropela a Carta Magna sem o menor constrangimento em nome de algum entendimento alternativo.

O caso Aécio é o maior escândalo da história da justiça e do parlamento brasileiros. O caso Temer vem a seguir. Sem contar o impeachment de Dilma, uma armação que levou ao poder um grupo crivado de comprometimentos judiciais. Vários do ministério inicial já estão na cadeia. A farra continua.

As panelas cozinham. A fúria moral passou.

Por Juremir Machado da Silva