Por Bepe Damasco 

É do bravo Marcos Coimbra, sociólogo dos bons, o melhor texto pós-eleitoral até agora. Vale a pena citar na íntegra o encerramento de seu artigo: “O Brasil tem o dever de esclarecer o que ocorreu na  última eleição, por razões nossas e porque somos importantes globalmente. Antes de saber o que aconteceu de verdade, é prematura a autocrítica e a lavagem de roupa suja na esquerda (por mais necessária que seja).”

Coimbra se refere às consistentes denúncias de manipulação das redes sociais por parte da campanha do capitão nazista, especialmente na reta final do primeiro turno, que atingiram em cheio o eleitorado mais pobre e, portanto, mais vulnerável ao jogo sujo, e fora da lei, da campanha bolsonarista.

Sabemos que o ministério público, a justiça eleitoral e quase a totalidade da mídia pretendem varrer para debaixo do tapete os fortes indícios de provas  apresentados pelo jornal Folha de São Paulo, segundo os quais foram utilizados recursos bilionários de caixa 2, o que é expressamente vedado pela legislação eleitoral, para caluniar via whatsapp o candidato Fernando Haddad, sua vice Manuela d’Ávila e o PT. Essas infâmias foram reverberadas, como se sabe, pelos mercadores da fé do alto de seus púlpitos espalhados pelos bairros populares das cidades brasileiras.

Mas, e a banda democrata e progressista da sociedade? Vai cobrar, mesmo remando a contra maré, que tudo seja passado a limpo, ou pretende se omitir diante da pusilanimidade das Carmens Lúcias, Toffolis e Rosa Webers da vida, ávidos por empurrar com a barriga as acusações em nome da “normalidade democrática e do funcionamento das instituições.”

As avaliações e balanços produzidos por partidos e quadros do campo da esquerda depois das eleições dedicam pouco ou nenhum espaço a  cobranças de apuração das violações da lei por parte da campanha de Bolsonaro. Essas análises, em geral, também têm passado ao largo da postura antidemocrática exibida por Bolsonaro ao longo de todo o período eleitoral.

Como ver com naturalidade um candidato que não se submete ao contraditório para ser eleito presidente da República? Precisamos ser claros: não participar de debates nada tem a ver com estratégia de campanha, mas sim com falta de respeito inconcebível ao eleitor e desprezo pelo regime democrático. Não custa seguirmos batendo na tecla de que pela primeira vez desde a redemocratização um candidato se negou a debater com um adversário de segundo turno.

Ignorante até a raiz dos cabelos sobre qualquer assunto, incapaz de formular uma miserável proposta que seja, acabou sendo extremamente conveniente para Bolsonaro se ausentar da campanha para se tratar da facada que levou em Juiz de Fora. De quebra, se beneficiou da enorme cobertura midiática acerca de sua recuperação.

Contudo, persistem algumas zonas de sombra sobre esse atentado. Por exemplo: sendo o bolsonarismo um movimento violento por excelência, cevado na cultura da intolerância e do ódio, chega a ser inacreditável que nem Bolsonaro nem seus filhos, e tampouco a legião de fascistas que inunda as redes sociais, tenham feito quaisquer ameaças públicas ao esfaqueador. Li hoje uma postagem no facebook, cujo autor ou autora não  lembro, que merece atenção: “Por que Bolsonaro tem tanto ódio de Lula, Dilma e do PT, mas não demonstra nenhuma mágoa do sujeito que o esfaqueou ?” 

Os agentes políticos do campo democrático e de esquerda devem olhar para frente.  Até porque dias terríveis se anunciam no horizonte. Mais do que nunca resistir é preciso, sem prejuízo da reconexão com as periferias e com o povo, projetando uma volta ao governo no futuro em novas bases. Entretanto, é um erro, que inclusive não contribui para o avanço da consciência política da sociedade, virar a página como se nada tivesse acontecido.