Esse texto de Bruno Amabile Bracco no site Justificando trata da doença atual e de sempre de nossa sociedade, o desejo da punição, a vingança, o terror para com o outro. A cisão entre pessoas que se odeiam porque pensam diferente e a doutrinação de algumas religiões que permitem e até incentivam isso.

Triste sociedade que pensa assim!

Este curto texto é sobre um assunto delicado. Temas religiosos jamais são simples. Falarei de Cristo e do diabo de maneira pouco convencional e em linhas breves. E, ao final, ficará o convite: que possa o leitor questionar-se, muito intimamente, o que realmente significa ser cristão.

Tememos falar sobre o diabo. O mero enunciar dessa palavra pesada já parece arranhar. Torna-se uma daquelas coisas obscuras, coisas sobre as quais não se fala. Há, é claro, bizarros grupos de rock, satanistas, adoradores do diabo em geral – mas para nós, bons cristãos que somos, quem se liga intimamente ao diabo é pessoa estranha, provavelmente distante dos planos de Deus, provavelmente condenada pela eternidade.

Olhemos com cuidado para o tema, agora. Um olhar menos apaixonado. Um olhar mais sereno.

A palavra diabo, diz Rollo May, vem do grego diabolos. Literalmente, diabolos significa separar, cindir (dia-ballein).[1]

O diabo separa, cinde, divide.

Pode ter a forma de serpente. Adão e Eva, ao provarem o fruto oferecido pelo diabo, saíram da plenitude do Éden. Dividiram-se. Eram, agora, conhecedores do bem e do mal.[2] Com o diabo, há fronteiras e divisões. Há eu e outro, esquerda e direita, situação e oposição, inocentes e pecadores, nós e eles. Há bem e mal. Em vez de integridade, há combate.

diabos

Dizer que a criminalidade deve ser combatida significa, etimologicamente, a adoção de uma postura diabólica – pois cinde e separa. O que é, afinal, condenar senão separar-me­ enfaticamente do outro? Cada ímpeto punitivo, por mais legítimo que possa parecer, por mais legítimo que talvez seja, é intrinsecamente diabólico, simplesmente porque separa em vez de unir. Grades e muros prisionais são a imagem mais explícita do que cinde e separa.

Deparamos com o ato repulsivo da vez. Uma barbaridade qualquer cometida por um menino qualquer. Pronto: é dado o sinal para que as projeções atuem. Odeia-se aquele menino. Odeiam-se todos os meninos que talvez façam o mesmo, talvez façam mais, talvez façam pior. Vem a ideia: que se aumente a pena, se reduza a maioridade, se acabe com a impunidade… A população empolga-se. Novos crimes vêm. Punições mais severas vêm. Contra homens. Contra meninos. Contra eles, que condenamos antes de qualquer olhar a nós mesmos. Contra o mal que, lá fora, há de ser extirpado.

Eis a separação. Eis a roda diabólica. O que pode haver de mais íntimo ao diabo?

Se o diabo, etimologicamente, alinha-se a divisões, grades e condenações, Cristo, tomado também simbolicamente, aponta a caminho radicalmente diverso. Se a separação é diabólica, a união é crística.

Cristo, de acordo com Jung, simboliza a totalidade psíquica: é “a expressão mais completa dessas combinações do destino que se chama indivíduo”.[3] E essa expressão tão completa não se contenta com unilateralidades e com divisões.

Cristo está além de qualquer oposição. Está além do bem e do mal. “No campo das nossas experiências, o branco e o preto, a luz e as trevas, o bem e o mal são pares de contrários, sendo que um sempre pressupõe o outro”, escreveu Jung.[4] “Cristo… representa uma totalidade de natureza divina ou celeste”.[5] Cristo é a plenitude. Seguir o caminho de Cristo é seguir o caminho da integridade. É aceitar as próprias luzes e as próprias sombras. É aceitar o bem e o mal de que é feita a existência. Por isso Jesus apelava, tão frequentemente, por perdão: estender a mão ao outro é estender a mão à plenitude em si.

O diabo separa. Quando não aceitamos toda a nossa inteireza, fragmentamo-nos. O inconsciente trata de projetar as porções não aceitas no mundo lá fora, nos outros. Entramos no terreno do bem e do mal. Provamos o fruto oferecido pela serpente – eis nossa queda, repetida a cada dia. Divididos interiormente, alimentamos as divisões exteriores. Nós contra eles. Queremos mais e mais punição. Em vez da totalidade, que demanda que abracemos o sombrio, alimentamos a separação. Em vez de a Cristo, ligamo-nos ao diabo.

Não julgueis; antes, olhai para vós mesmos: talvez seja esta a essência do ensinamento de Jesus. “Não creio que vós considerásseis tal princípio como sendo popular nos tribunais dos países cristãos”, escreveu Bertrand Russell, num conhecido ensaio.[6] Psicológica e etimologicamente, podemos ser ainda mais incisivos: a ânsia desenfreada por condenação – ânsia tão comum neste país predominantemente cristão – não apenas nos afasta de Cristo, mas também nos aproxima, e muito, do diabo.

Que temos feito por milênios, senão colocar em combate o que consideramos bem e o que consideramos mal? Que temos feito, senão nos dividirmos mais e mais? Na ânsia punitiva que tanto busca a vitória do bem, separamo-nos. Na busca desesperada pelo bem, tornamo-nos diabólicos. Talvez não seja este mais um dos ardis do diabo, capaz de disfarçar-se de anjo de luz (2Cor 11:14)? E, na nossa pretensa bondade, fazemos o perfeito oposto do desejo crístico – que tanto apelava por perdão, jamais por condenação.

Bons cristãos, que temos feito de nosso cristianismo? Arrastamo-nos pelo mundo aos tropeços. Nossa integridade há muito se perdeu. Tão difícil nos é perdoar! Dizemo-nos cristãos, mas dividimo-nos, interna e externamente. Dizemo-nos cristãos, mas espalhamos julgamentos. Voltamo-nos contra eles. Contra satanistas. Contra criminosos. Contra meninos. Mas o que dizer da trave em nosso próprio olho (Lc 6:41-42)? E das nossas próprias divisões e condenações, que tão intimamente ao diabo nos ligam?

Bons cristãos – tão julgadores, desejosos de aumento de pena, de redução da maioridade, do fim da impunidade –, fica a nós, enfim, a pergunta fatal: quem, de fato, nós somos?