Por Malu Aires

Dias depois da posse do presidente eleito, o Aécio venezuelano resolve dizer que ele é o presidente interino, sem apoio e voto do povo venezuelano, mas com a indicação de Trump e Bolsonaro.

Maduro mandou a polícia com a Constituição na casa do sujeito e o engraçadinho já foi, definitivamente, “comido”.

O Brasil ainda suporta “esquerdistas” que torcem pelos “Aécios” do mundo, até hoje. Suportam “esquerdistas” que negam o golpe. Negam a perseguição política contra o PT. Negam os avanços sociais, inéditos, alcançados nos governos PT. Acima de tudo, negam a intromissão do imperialismo, por toda nossa história de país.

O Brasil ainda suporta o azedume de uma classe média que apresenta a velha fórmula do “progresso” pacificado com a elite do atraso.

Pra que lado fica a esquerda?

A esquerda brasileira resistiu ao império, lutou pela abolição, fez a Greve Geral de 1917, sobreviveu ao tiro no peito de Getúlio, ao assalto dos sanguinários generais e resiste a um golpe que vem de todos os lados.

De que lado vem esse golpe? Do lado de dentro da gente.

Estamos suscetíveis à enganação ideológica, mais que aqueles que nunca tiveram uma ideologia pra viver.
Pensamos como burgueses que queremos ser. Agredimos como misóginos que sempre fomos. Tem homofobia no nosso deboche. Racismo no nosso olhar. Não entendemos o mundo e contamos com gente para “interpretar” nosso tempo. “Pagamos” para quem possa ver o que já não vemos.”Contratamos” gente que nega a realidade.

O Império ergueu nosso Coliseu eletrônico e alimentou milhões de espectadores de crueldade extrema, abuso, preconceito, mentira e ódio. Anos e anos de espetáculos de extrema violência e já estamos moralmente anestesiados.
“Pagamos” para quem possa sentir o que já não sentimos.”Contratamos” quem só sente raiva.

A miséria e a pobreza, tratamos em esferas, bem longe dos nosso olhos. Ordenamos, mandamos: “Tô te pagando pra cuidar dessa bagunça!”.

Somos a herança pobre da elite do atraso, provando que já aprendemos a comer com garfo e faca.

A esquerda brasileira parece tentar equilibrar várias “esquerdas” numa corda bamba. Depende da unidade, fragmentada em ideologias divergentes. A luta de classes está viva no condomínio do prédio, na roleta da padaria do bairro, nas instalações da estação do metrô. A desigualdade está presente em tudo o que sentimos com olhos, nariz, mão e boca.

Somos desiguais por natureza. Egoístas, por opção. Pagamos uma boiada para não nos metermos com isso. Com uma mão, esperamos o troco e, com outra, batemos no peito “Sou esquerda!”.

Quem não acha justo pagar boiada, nem boi, paga mais caro. Paga com perseguição, paga com prisão, paga com exílio, paga com sangue.

Quanto a esquerda brasileira quer pagar?

A tendência é pagar de centro e a moda surgiu na Grécia. A “esquerda possível” sustenta os rombos do Império, dando ao Mercado, poder absoluto sobre o Estado e a vida do povo.

A “esquerda possível” flerta com a elite do atraso. Tem que mostrar à ela que sabe se sentar à mesa, assentar o guardanapo no colo e usar os garfos e facas para peixe e sobremesa.

A “esquerda possível” não vê crime algum nos métodos do Império. Passa-borracha.

Essa foi a condição dada pelo Império: pra existir resistência, atendemos às exigências. É isso, ou guerra.
Maduro já está pronto para enfrentar, inclusive, uma guerra. O povo lá, também.

Bolívia, sem Rússia, Irã e China dando cobertura, já quer ser “esquerda possível”. Uruguai já é e essa é a tendência da esquerda que se quer possível, diante da brutalidade do Império.

Aqui, ficamos em círculos, tacando pedras. Sem entender os pactos assinados sobre nossas vidas e nosso futuro possível, tacamos pedras uns nos outros. Que “esquerda” atira pedras em Maduro? A que aplaude a Itália pelo “drible no Moro”. Também aplaude Moro pelos assassinatos jurídicos que o juiz comete no Brasil, semelhantes aos cometidos na Itália e que condenaram Battisti à prisão perpétua. É o espectador que ora torce pro gladiador, ora pra besta.

Não é possível compactuar com a “esquerda possível” no Brasil, quando ela flerta com o indefensável. Quando ela arbitra pela covardia.

Estamos cá, lutando contra nossos fantasmas. Aqueles que dão um boi para não entrarem numa briga, mas dão todos os empregados do latifúndio, para não entrarem numa guerra.

Na Venezuela, Maduro é reeleito. No Brasil, Lula é sequestrado político. Na Bolívia, Evo não quer encrenca.

Bolsonaro, por outro lado, é o primeiro a se alistar na encrenca. Não fazendo nada para impedi-lo, nossa possível “esquerda possível”, será comida na entrada do banquete do Império.

Não há estratégia a ser considerada, de quem não estiver abrindo na mesa, um mapa de guerra mundial. A resistência será mais difícil, contando com quem nega a realidade. E da realidade, não se consegue fugir muito tempo.

São várias realidades pra nossa gente se deparar: estamos numa guerra; não nos sentimos nação; não temos time nem pra Copa, quanto mais pra ganhar guerra. Mais uma guerra do Império contra a liberdade dos povos.

Vamos perder se não soubermos pra que lado fica a esquerda.