Por Washington Quaquá Presidente do PT no Estado do Rio de Janeiro

Getulio Vargas, vitorioso na revolução de 30, como gesto de tomada do poder, reuniu a gauchada e amarrou os cavalos no Obelisco que ficava logo após a Cinelândia. Se não amarrou de fato, pelo menos a lenda e o símbolo estão lá! Sem cavalos, mas com um lenço vermelho de gaúcho no pescoço, Brizola amarrou seu nome na história do Rio de Janeiro. De lá pra cá, nós cariocas e fluminenses passamos a ter uma relação política de respeito e irmandade com os gaúchos.

Mas não é todo gaúcho e em qualquer circunstância que pode amarrar os cavalos no nosso obelisco. Tem que ter sinergia com a história e com as lutas e a alma do povo.

O PT vive uma crise de muitas dimensões: política, ideológica, teórica, orgânica, diretiva, de imagem e de identidade… Nestas horas de crise surgem sempre candidatos a salvador da pátria.

Antes de mais nada quero registrar que fico abismado em ver como o PT se auto flagela e tem vergonha de si mesmo. Temos erros, que não são poucos mas, que são comuns a qualquer obra humana. Mas temos acertos que perdemos a capacidade de defender. Nenhum partido ou organização política mudou tão profunda e intensamente a vida de tantos brasileiros e brasileiras. Uma obra que ainda está incompleta! Poderia ficar páginas enumerando tudo que fizemos, em nossas prefeituras, governos de estado, mandatos parlamentares e nos dois governos Lula e um de Dilma.

Mas é óbvio que temos ainda muito a fazer. O debate que o PT deve fazer é como fazer esse muito mais!

Temos defendido há algum tempo aqui no Rio de Janeiro duas questões fundamentais para o atual período político do Brasil:

1- a aliança ampla, sem nitidez política, base programática e policlassista que fizemos para eleger Lula e Dilma duas vezes, está esgotada como polo das mudanças sociais no Brasil. Com ela fizemos melhorias fantásticas nas condições de vida de milhões de brasileiros e brasileiras mas ela não permite que avancemos mais. Portanto uma aliança nacional com o PMDB, PP, PTB, PSD etc não tem mais caráter tático central. Ela ainda tem que ser mantida apenas como aliança parlamentar e de governabilidade, devido às características fragmentadas do sistema político brasileiro;

2- é preciso fundar uma Frente Política, com nitidez programática e ideológica constituindo imediatamente uma Frente Ampla ao estilo uruguaio com as características brasileiras. Uma nova Frente Brasil Popular, mais ampla que a de 1989, Que una PT, PCdoB, CUT, CTB, MST, MTST, UNE, UBES… Outros partidos, organizações e milhares de movimentos que queiram constituir uma plataforma reformista para o Brasil. Uma frente mais ampla que a de 89 porque nela cabe personalidades e grupos que hoje estão em partidos mais conservadores, como a Família Gomes do Ceará, Amaral e os remanescentes do velho PSB, a família Brizola, Requião do Paraná etc… Uma frente que tenha uma plataforma com pontos claros como a reforma tributária que distribua renda e riqueza; a reforma política que democratize o poder; a reforma agrária que distribua terra, diversifique a produção e garanta a produção dos pequenos e médios; a reforma da mídia que pulverize a propriedade e democratize a informação; a reforma do judiciário que ponha na toga também os filhos do povo; a reforma educacional da escola de tempo integral e da ciência e tecnologia; a reforma urbana da Tarifa Zero, do trem urbano, do trem bala, da reforma da casa do pobre na favela e da ampliação do Minha Casa Minha Vida; a reforma da segurança pública com territórios ocupados por políticas sociais massivas e com polícia desmilitarizada, investigativa e cidadã;

Tudo isso só é possível com a bênção e a coordenação do Presidente Lula. Nos somos Lulistas! E somos Lulistas porque somos revolucionários! Não se faz mudança social, reformas amplas, mudanças profundas e ao cabo revolução social, sem as massas pobres. Sem povo!

Lula é o paizão do povo. Nós latinoamericanos produzimos na nossa história poucas lideranças deste tipo. E parte de nossa alma e de nossa cultura. No Brasil tivemos Getulio. Mas nenhum veio de pau de arara do Nordeste, vendeu bala na rua, fez curso de torneiro mecânico, virou sindicalista no setor mais moderno da economia, liderou a fundação de um partido de esquerda e se tornou o melhor e mais amado presidente da história do país!

Com Lula e uma nova Frente Brasil Popular, defendendo o legado de tudo que fizemos pelo Brasil e pelos brasileiros e brasileiras, e com uma plataforma reformista para o Brasil, nós temos tudo pra reorganizar a esquerda e construir um processo de politização do povo que nós não fizemos nestes 12 anos de governo e que foi um de nossos grandes erros.

Aqui no Rio estamos trabalhando para isso. Construindo na pratica uma esquerda popular e socialista. Estreitando laços com o PCdoB, CUT, MST, e diversos movimentos sociais. Construindo políticas concretas de cunho popular e reformista para apresentar a sociedade e avançar na organização do povo.

Nossa relação com o PMDB está sendo retomada por três questões:

1- primeiro porque a candidatura de Lindberg não obteve sucesso eleitoral e não conseguimos criar também com ela referência política pela esquerda, embora ela tenha tido grande importância e tenha firmado o PT como polo contra hegemônico no Estado. Portanto ela foi mais do que acertada e positiva para o partido. Mas é fato que não temos hoje nenhuma liderança eleitoral com densidade para a disputa em 16 na cidade do Rio;

2- no próximo período Eduardo Paes tende a ser a principal figura do PMDB no Estado. Será ele o candidato a governador em 18 e Pedro Paulo o candidato a prefeito em 16. O PMDB do Rio não é monolítico. Eduardo apoiou Dilma e teve destacado papel na sua vitória. Mas, mais que isso, queremos também Pezão, Cabral, Picianni e mesmo Eduardo Cunha apoiando nosso candidato presidencial em 18 e dialogar com cada um deles (cada um deles é uma entidade diferente e separada) para garantir uma pauta de governabilidade e garantia de direitos. Nisso o governo Dilma precisa também ajudar negociando e ao mesmo tempo tendo mais altivez!

3- não podemos retomar essa relação institucional e eleitoral de forma rebaixada. Só podemos fazer uma aliança política ou eleitoral com o PMDB do Rio de Janeiro se pontos claros de reformas populares forem incorporadas aos governos e executadas por uma esquerda com nitidez política e programática. Essa será a base de qualquer conversa e não a discussão rebaixada de cargos. Mas não vamos fazer discussão eleitoral agora. Temos que acertar o compasso da discussão programática e institucional primeiro.

Enfim, embora nunca tenhamos sido chamados pelo ex governador do Rio Grande do Sul para discutir os caminhos da esquerda, estamos dispostos a fazê lo. O faremos inclusive publicamente se for necessário. Não reconhecemos em nenhuma força política fora ou dentro do PT nenhuma posição política mais à esquerda que a nossa. Pra nós ser de esquerda não é fazer citação teórica e nem falar com a voz do dicionário. Ser de esquerda é estar presente na vida do povo, no seu local de moradia, trabalho e estudo. É estar lá organizando o partido e as lutas. É estar sempre a seu lado!

O PT é o partido do povo, que com todos os defeitos e acertos nunca traiu esse povo. Lula é nosso líder e o será por muitas e muitas décadas, para além do seu tempo físico.

Estamos abertos ao debate e a construção de uma esquerda popular, socialista e que muda concretamente a vida do povo. Estamos dispostos a dialogar com Tarso ou qualquer outro dirigente ou quadro de massa do PT de qualquer estado que venha ao Rio ou para o Rio. Mas tirando o Lula, não há ninguém no país que tenha cavalo pra amarrar no nosso obelisco.