Uma das coisas que os burgueses mais gostam é de compartilhar histórias de pessoas que apesar de muito pobres deram a volta por cima e “venceram na vida”. Bom, ao parabenizar o pobre que “venceu na vida” (e realmente merece aplausos), a pessoa automaticamente reconhece o quanto é difícil a vida de quem não nasceu em berço de ouro. Se ela reconhece o quanto é difícil, é no mínimo contraditório que em outras ocasiões esta mesma pessoa rotule de “vagabundos” aqueles que dependem de programas sociais. E infelizmente é isso que faz a burguesia, por um lado reconhece o quanto é difícil a vida dos pobres, por outro tece duras criticas ao auxílio que o governo concede aos mesmos. É uma contradição que diz muito do caráter destes que se auto intitulam “cidadãos de bem”.

Esta contradição se dá porque o que os burgueses realmente comemoram não tem nada a ver com reconhecimento; Eles usam estes raros exemplos de pessoas que venceram pra reforçar o próprio discurso de que se um pobre conseguiu vencer, todos os outros conseguem, se não conseguem é porque não trabalharam o suficiente. Discurso raso por sinal, mesmo porque, se o trabalho fosse decisivo para se “vencer”, a maioria dos seres humanos (em especial chineses) não estaria na merda. Portanto, estes elogios burgueses são tão falsos quanto as promessas de um candidato de direita.


Estamos sob a mão de ferro de um sistema que consiste basicamente em concentrar renda nas mãos de uma minoria, nem que isso custe os direitos da maioria. Portanto é preciso mais do que trabalho se quiser se sobressair, é preciso a ideia certa na hora exata, é preciso saber suprir as demandas mais ambiciosas do mercado com maior precisão do que os demais. E os programas sociais existem, entre outras coisas, para proporcionar melhores oportunidades e condições de vida aos que ainda não tiveram a ideia certa na hora exata. Extinguir ou diminuir investimentos nesta área é condenar parte expressiva da população a meros burros de carga sem perspectiva alguma, e ao que tudo indica é o que a burguesia deseja. Como já bem disse um dos seus porta vozes: “A miséria não acaba porque dá lucro”.


Um dos programas que mais leva pedradas dos filhinhos de papai é o bolsa família, segundo eles, trata-se de um programa que leva a beneficiária ao comodismo, e que o correto não é dar o peixe, mas ensinar a pescar. Talvez o discurso até fizesse algum sentido se não fosse pela real intenção por trás, o blefe começa no instante em que o crítico ignora que a maioria das beneficiárias trabalha duro, e só tem direito aquela que mantêm o filho na escola… Ademais, como aprender a pescar de barriga vazia?

Quando percebem que seus argumentos não colaram, passam a citar casos em que uma ou outra beneficiária investe o benefício em futilidades, e que tal atitude é razão mais do que o bastante para que o governo dê fim no programa. Ora, por conta de meia dúzia que faz o que não deve, milhões de beneficiárias honestas pagarão o pato? E por que não denunciam esta meia dúzia? Talvez porque seja uma falsa afirmação? Ao não denunciar a pessoa acaba se tornando cúmplice. Ignoram também que o programa é um estímulo à economia, e existe tanto em países mais pobres quanto mais ricos que o nosso, e muitas vezes com valores até maiores. Programas sociais não são gastos, mas investimentos.


Outra balela é que os governos que criaram este programa e os que o mantêm, estavam e estão mais é querendo abocanhar o voto dos miseráveis. Entretanto a constituição estabelece o direito à alimentação em seu Art 6º (titulo II – dos direitos e garantias fundamentais), introduzido pela Emenda Constitucional nº 64 em 04/02/2010. É de praxe que os burgueses (e alguns pobres puxa sacos de burgueses) semeiem no imaginário popular que o programa é uma espécie de moeda de troca, quando na verdade trata-se de um programa descentralizado, indiferente do candidato que a beneficiária votar, a mesma não perderá o benefício. Além do mais, se o governo que criou o bolsa família quisesse realmente manter as beneficiárias na dependência eterna deste programa, não teria criado tantos outros cujo propósito é ajudar as famílias a abrirem mão do benefício, vide PRONATEC, FIES, PROUNI etc.


As cotas raciais também não escapam das pedradas, segundo os burgueses é no mínimo “vergonhoso” que um negro entre nesta, pois o fato de ele ser negro não o torna menos competente que o branco. Sim cara pálida, é óbvio que ambos têm a mesma competência indiferente da cor, o que não significa que tenham as mesmas oportunidades. Se existe uma raça que deveria sentir vergonha, esta raça é a burguesia cuja maior parte da fortuna deve-se aos seus antepassados que escravizaram os antepassados destes negros por quase 400 anos. Se não bastasse, quando finalmente tiveram sua liberdade, os negros não foram ressarcidos como nos outros países, ao final da barbárie a burguesia saiu mais endinheirada do que entrou e os negros sobraram de mãos calejadas abanando. É, ao que parece faltou competência ao branco para fazer fortuna sem precisar explorar o próximo.


As cotas raciais não são “privilégio”, nada tem a ver com os beneficiários estarem em busca de levar vantagem, o programa consiste em diminuir a desvantagem, portanto não permanente. Na minha humilde opinião a escravidão por si só explica porque para cada 10 endinheirados atualmente, apenas 1 é negro, e, sabendo-se que os negros são maioria no Brasil, esta discrepância gritante reforça que há sim algo de muito errado. Se negros e brancos têm a mesma competência, qual outra justificativa para esta diferença que não a escravidão de ontem somada ao racismo de hoje?


O discurso burguês é sempre um festival de demagogia e contradições, enquanto gritam contra programas sociais, seguem omissos em relação à mãozinha bilionária que o governo concede aos seus pares e papais. Isso sim é vergonhoso, ainda mais considerando que, além de não precisarem desta tal “mãozinha”, esta tal “mãozinha” é a mesma que vem retirando os direitos dos trabalhadores, mais precisamente desde que Temer deu um golpe e assumiu o comando do país.

E é sempre bom lembrar que foi graças a estes burgueses que Temer chegou onde chegou, sem o respaldo das ruas seus aliados jamais se arriscariam ajudá-lo a derrubar Dilma. Como tudo que parte dos burgueses é contraditório, eles justificam que foram às ruas contra a petista devido ao seu governo se encontrar atolado em corrupção, mas agora se fecham num silêncio ensurdecedor, como se o planalto estivesse nas mãos de alguém acima de qualquer suspeita. Nunca dão as caras, e quando o fazem, é para tirar o seu da reta, ou seja, alegar que foram os petistas que votaram em Temer, se fazem de completos ignorantes em relação ao nosso sistema eleitoral


Também faz parte do discurso burguês que o governo devesse privatizar a educação, ou seja, quem tem dinheiro que curse uma faculdade, quem não tem que trabalhe dobrado e banque uma particular, de preferência sem bolsa alguma para ajudar a pagar as mensalidades. A burguesia tem a mesma opinião em relação à saúde; privatiza tudo e que vá para o inferno quem não puder pagar. A má fé destes filhinhos de papai ficou ainda mais evidente quando seus paus mandados do “MBL” (movimento criminoso por sinal) foram à Brasília tentar impedir Dilma de taxar grandes fortunas, taxação comum em países de primeiro mundo cujo principal objetivo é investir em programas sociaisNenhum burguês tem que ser esquartejado pelo simples fato de ter nascido burguês, entretanto não tenho a mesma opinião em relação aos que tentam ferrar ainda mais a vida dos que já estão ferrados.


Não é interessante para os que se encontram no topo da pirâmide que os que estejam na base cheguem muito longe. Basta conferir, por exemplo, que todos os projetos em desfavor dos que estão na base são de autoria de parlamentares endeusados diariamente pelos que se encontram no topo. Coincidência? Outra evidência do egoísmo burguês é quando discursam que não têm nada contra o pobre ter melhores oportunidades, desde que sem a ajuda do governo, num português mais cristalino, desde que sem a ajuda dos impostos que eles pagam. O que se “esquecem” é que os da base da pirâmide também pagam impostos, aliás, pagam até mais. Ora, se estes impostos pesam mais nas costas do proletariado, nada mais justo que tenhamos programas sociais à disposição, em especial agora que tivemos nossos direitos trabalhistas jogados no lixo.

E o alvo das pedradas da burguesia não se limita a programas sociais, os movimentos sociais também são alvos frequentes. Segundo os filhinhos de papai, o “MST”, por exemplo, é um movimento criado para “roubar terras dos cidadãos de bem”, ainda enaltecem os EUA dizendo que por lá não existe isso de “sem-terra”. Verdade! Mas omitem a quantidade de “sem-teto” que lá existem morando inclusive em florestas, além de omitirem que há mais de 150 anos foi feita uma reforma agrária naquele país, o que parece impossível de se conseguir no Brasil.

Exemplo clássico foi na década de 60 quando o então presidente João Goulart discursou seu desejo de uma reforma neste sentido, na semana seguinte a burguesia saiu às ruas pedindo seu impeachment. Seria cômico se não fosse trágico, mas metade dos documentos de posse de terra no Brasil simplesmente é ilegal, sugiro ao leitor uma estudadinha no que foi a “Lei de Terras de 1850” para entender um pouco mais do que a burguesia é capaz. Enfim, talvez os “bandidos” não sejam exatamente os “sem-terra”, mas os que fizeram por onde eles existissem e os que fazem por onde mantê-los nesta situação.


A pilantragem dos burgueses parece não ter fim, além de estarem entre os que mais exploram o trabalhador, estão entre os que mais sonegam impostos, e figuram como detentores da quarta maior fortuna do mundo em paraísos fiscais. Discursam que os impostos brasileiros são os mais altos do mundo, mas estão entre os que mais torram dinheiro com futilidades no exterior, nem em países cujos impostos são maiores e o retorno pior do que o nosso, se sonega tanto. Nossa carga tributária média é a quinta mais baixa entre as 20 maiores economias, ainda assim a “sonegagem” equivale a 7 vezes o montante surrupiado ao ano pelos políticos brasileiros, equivale também, vejam vocês, a 20 vezes o valor gasto com o bolsa família.


E assim segue a vida, de um lado o governo alegando que não há como investir em serviços públicos devido à sonegação, e do outro os burgueses alegando que sonegam devido ao governo roubar ao invés de investir em serviços públicos. Mas os burgueses não estão muito preocupados com a corrupção, pelo menos não com a protagonizada pelos parlamentares que os favorecem. Também não estão preocupados com serviços públicos, sequer precisam deles. E quem sai perdendo com este circo dos horrores são os palhaços, ou seja, os pobres que realmente precisam destes serviços. 
E não pára por ai, segundo os filhinhos de papai são eles que produzem toda a riqueza do país, não os trabalhadores. É um tapa na cara do brasileiro, e nem estou levando em conta que se o trabalhador tudo produz, ao trabalhador tudo pertence


Alegam que só não contratam mais funcionários nem aumentam o salário dos que já possuem devido aos encargos trabalhistas que são muitos. Juram que se não tivessem tantos encargos até poderiam contratar mais e/ou aumentar o nosso salário. Que os encargos brasileiros são muitos é uma verdade inquestionável, o que não significa que seja verdade que sua preocupação seja para conosco, e não em conseguir maiores lucros por meio da extinção dos nossos direitos. Um exemplo clássico do quão falacioso é este discurso são as domésticas, quando não tinham direito trabalhista algum eram raras as que recebiam mais do que um mísero salário mínimo, muitas nem isso.


A verdade é que os que da elite fazem parte sonham com um Brasil como o de antes de Lula democratizar a educação, portanto estão dispostos a ir até as últimas consequências para manter o pobre na condição de “escravo moderno” e com oportunidades de ascensão pra lá de ridículas. Se é para o pobre dispensar qualquer tipo de ajuda estatal, que os que da elite industrial fazem parte abram mão de nos explorar através de salários de fome e cargas horárias abusivas. Nada mais hipócrita do que uma classe enaltecer a meritocracia estando em vantagem em relação à outra.


Nos querem menos dependentes do estado e mais dependentes da boa vontade do “deus mercado”, logo, nada mais natural que demonizem o estado, em especial os políticos de esquerda (minoria no congresso). Graças à esquerda é que ainda temos alguns programas sociais, pois no que dependesse daqueles que a elite tenta nos convencer que são “boa gente”, o Brasil seria uma segunda Hong Kong. Me recuso definitivamente a acreditar no sorriso amarelo da elite. Comemorar casos isolados de um ou outro pobre que “venceu na vida” é nada mais do que uma cortina de fumaça por parte dos filhinhos de papai… Casos isolados cujo único propósito é desviar nossas atenções dos outros milhões que se afundam na merda por mais que se matem de puxar carroça para estes parasitas.