Em uma escola pública municipal na cidade de Campinas-SP uma criança portadora de hidrocefalia foi matriculada. A criança tem quatro anos de idade. A mãe da criança tem vinte anos de idade. E o pai da criança está preso.

A criança faz fisioterapia duas vezes por semana, pelo sistema público de Saúde. A mãe faz uso de ônibus do sistema público de transporte, dois ônibus para ir e dois ônibus para voltar, em uma jornada de cerca de duas horas da residência até o local da fisioterapia.

Conversando com alguém sobre o problema da criança, uma pessoa me disse:

– Parece que essas coisas só acontecem com pobre.

Não. A hidrocefalia neste caso foi detectada aos seis meses de gestação. Quando um caso assim ocorre com rico, o rico aborta. Por isso há a impressão de que “essas coisas só acontecem com pobre”.

Todo esse conjunto de fatos que apresentei no primeiro parágrafo compõe um quadro trágico presente em muitas famílias pobres no Brasil, sendo possível extrair dessa tragédia diversos temas para debate, como por exemplo: existe um programa social chamado “Auxílio Reclusão” que não é compreendido, mas é odiado, pela maioria absoluta da população; Outro tema, a carga de responsabilidade que é atirada nos braços da mãe em relação à responsabilidade sobre a criança, neste caso uma mulher que se tornou mãe aos dezesseis anos de idade; a descriminalização do aborto também pode ser debatida a partir desse caso trágico.

Eu vou comentar brevemente sobre algo que é uma das causas dessa história trágica que infelizmente não é a única e não vai terminar aqui.

Eu falo sobre Educação, informação, política pública de prevenção a esse tipo de tragédia.

Falar na Escola sobre sexualidade, prevenção de gravidez, gênero, educa os adolescentes, e os prepara a se prevenir contra esse tipo de tragédia que envolve gravidez precoce, violência, comprometimento do desenvolvimento social deles, enfim, circulo de pobreza.

Mas o que se tem é uma horda, composta em grande parte por homens e pessoas portando bíblias, que se declara “a favor da família e da vida”, berrando impropérios contra qualquer tentativa de Educação sexual nas Escolas. Porém, essa mesma horda que se declara “a favor da família e da vida”, se faz absolutamente ausente na realidade fática posta por casos trágicos como este que relato neste texto.

De verdade, a horda moralista nem toma conhecimento das tragédias.

No caso em tela, a Escola é quem está dando suporte para a família, além de acolher a criança, está dando orientação à família e encaminhamento aos serviços públicos de Assistência Social. A Diretora, a Coordenadora Pedagógica, a Cuidadora, a Professora, enfim, as pessoas que a horda hipócrita costuma acusar, e denunciar quando tem oportunidade, de “doutrinação ideológica”.

Cômodo é esbravejar “a favor da família e da vida”.

Por Gerson Carneiro