Por Julia Rocha, médica de família, cantora e compositora

Há cinco anos eu pensava que bolsa família era um exagero populista.

Achava que pegar remédio de graça no SUS era meio demais.

Achava que gay afeminado era semvergonhice.

Pensava que feminismo era o contrário de machismo.

Achava que lutar pela descriminalização do aborto era coisa de gente desalmada.

Achava que a legalização da maconha era algo absurdo e descabido. Coisa de vagabundo.

Achava que acabar com o financiamento privado e instituir o financiamento público de campanha era um desaforo para tirar mais dinheiro do povo.

Pensava que bandido preso tinha que sofrer mesmo, tinha que dormir no chão e comer mal. Quem mandou ser bandido?!

Sim, eu era essa pessoa vivendo nesse grau de mediocridade! Que vergonha! Mas, até eu tive salvação!

Há 5 anos reduzi drasticamente o tempo que dedicava a ver TV. Parei de levar em conta a opinião de gente que só se informava pela mídia hegemônica e busquei textos e reportagens de forma independente. Vi filmes que não passavam na sessão pipoca. Conversei com oprimidos: gays, lésbicas, negros, periféricos, analfabetos, mães solteiras…

Porém, penso que o que mais me transformou foi conhecer diretamente a realidade das pessoas mais pobres. Eu não queria saber de ouvir falar. Queria sentir o cheiro, pegar com as minhas mãos.

E lá fui eu, ser médica de família de pessoas que não tinham nada. Mesmo quando trabalhei em bairros de classe média, sempre, uma boa parte da população que eu atendia vivia em situação de pobreza, alguns tangenciando a miséria.

Foi transformador. Eu descobri que bolsa família servia pra comer. Vi mulheres pobres, abandonadas por seus homens escrotos, indo se submeter a abortos clandestinos em açougues de fundo de quintal enquanto eu ficava de cá rezando (naquela época eu ainda rezava). Vi mães pretas chorando a morte violenta de seus filhos pretos num tribunal sem direitos, sem advogado e sem juiz. Vi homens magros, judiados do sol de uma vida inteira, morrerem novos de tanto trabalhar. Vi crianças peladas, sentadas na terra da rua. Vi ruas de terra, carroças, cachorros e gatos em cima das mesas. Vi loucos, vi bêbados, vi feridos.

O que eu acho que falta para grande parte das pessoas no Brasil é ver. Não pelo jornal. Ver ao vivo. Por que é impossível ver e não se tocar. É impossível sentir o cheiro da miséria e dela não compadecer-se. A não ser que você seja um completo monstro.

Só um monstro seria capaz de querer tirar mais direitos dessas pessoas MISERÁVEIS. Só um monstro poderia pensar em reduzir ainda mais o acesso desses homens e mulheres ao sistema público de saúde. Só um monstro poderia pensar em fazer esses moribundos trabalharem mais uns anos de suas secas vidas.

Precisamos de um movimento. FORA, MONSTROS.