Há alguns anos quando era criança tive algumas experiências com a religiosidade. Meu avô, uma pessoa simples e doce me mostrou muitas coisas. Minha mãe, bastante estudiosa me mostrou outras coisas. Meu pai com sua musicalidade outras. Depois, muitas pessoas passaram pela minha vida e me mostraram muito do que sentiam e acreditavam e do que não sentiam e não acreditavam também. Eu mesma busquei nas minhas andanças pela vida o sentido dela e o objetivo de tudo. Múltiplas religiões através de diferentes pessoas me ensinaram que cada um tem sua forma de ver o mundo e isso precisa ser respeitado. Aprendi demais com tudo isso. E foi isso que me fez ser a pessoa que sou.

Nunca fui religiosa, pelo menos da forma como a grande maioria entende por religião. Sempre fui muito mais estudiosa e com um desejo ardente de entender a vida, suas sutilezas, sua grandiosidade e o por quê de muitas situações. Mas, a observação e o estudo também me fez ver o quanto algumas religiões tem sido reprodutoras de um modelo fundamentalista e preconceituoso de vida e o quanto isso provocou ódio e mortes, diferente do que propõe a própria palavra “religião” que vem do latim “religare” que significa religação com a divino. Uma ligação muito mais interior do que exterior, que deveria mudar as pessoas para melhor e não fazê-las provocar guerras, discriminações, racismo, sexismo e tantas outras coisas que atentam contra o sentido de humanidade.

sentimentos 2Mas, a falta de religião não me fez deixar de acreditar em algo que considero muito importante. Acredito na vida, na alma humana e sua capacidade de aprender e ser melhor a cada dia.

Acredito que cada pessoa tem dentro de si um mundo de possibilidades e que dependendo das condições de vida a que são submetidas se abrem, dependendo da forma como são tratadas, expandem sua consciência e vão em frente. E para isso não há uma engrenagem, uma direção, um caminho maior do que o amor.

Me lembro que quando eu era pequena tinha uma coisa que minha mãe me dizia que me deixava perplexa. Ela falava que eu iria sofrer muito na vida por causa do meu jeito de ser. Eu era sincera, espontânea e amorosa e repartia com todos à minha volta esse meu jeito peculiar. Para ela e para alguns outros que passaram por minha vida, isso seria motivo de sofrimento e discriminação pelas pessoas. Minha visão de mundo, minha forma de ver as pessoas seria romântica, idealista e irracional. Sempre me revoltei com isso. Por que eu teria que mentir, por que não demonstrar afeto quando queria demonstrar, por que as pessoas não gostariam de ser amadas? Por que eu teria que fingir e ser hipócrita?

Com o tempo entendi o que minha mãe queria dizer. Nem todas as pessoas estão na mesma sintonia que você está e podem te causar dor e sofrimento com seus atos. Entendi que muitas pessoas querem te ferir, precisam te causar dor e sofrimento, porque a vida fez isso com elas e elas não conhecem outra coisa senão causar dor a outros porque não conseguem aceitar a sua própria dor. Entendi também que outras pessoas apesar de não querer te ferir acabam fazendo sem querer porque não acreditam em outra coisa a não ser no sofrimento, no ódio, no rancor, na deslealdade, na mentira. É tudo uma questão de crença.

Compreendi então que religião para as pessoas se traduz em crer, acreditar. Crer em histórias, valores, preceitos, objetivos de vida, regras, normas, princípios… E comecei a ver que não é assim só com aqueles que tem religião. Todos nós temos crenças. Temos princípios que norteiam nossa vida e fazem com que a vivamos de uma forma ou de outra. Se todos acreditamos em algo que nos direciona para algum lugar ou algum propósito, por que o amor não pode ser esse propósito? Por que o amor não pode ser a nossa ideologia?

Por que tantas pessoas religiosas são tão más e odiosas? Por que são causadoras de guerras e destruição? Por que a religião na verdade é uma ideologia e como ideologia se torna norteadora de mentes e corações.

Amar alguém é o trabalho mais complexo e mais permanente que existe. Exige cuidado, paciência, carinho, respeito, capacidade de perdoar e ceder, e muita esperança. Esperança essa não no sentido de esperar, mas, no sentido de agir com os outros exercitando constantemente o reconhecimento desse outro em nós, nos colocando no lugar dele e entendendo as inúmeras diferenças que temos.

Assim, eu entendo que os maiores desafios que temos na vida são esses. Aumentar o nosso nível de consciência sobre nós e os outros e a nossa capacidade de amar.

Assim como eu tenho limitações e desejos o outro também tem. Somos diferentes, pensamos e sentimos de forma diferente, mas, essas diferenças não precisam levar a discórdias, agressões e ódio. As diferenças existem para enriquecer o mundo e não para destruí-lo.

O aumento da consciência e a capacidade de amar nos faz buscar os consensos e respeitar os dissensos. Nos faz entender quando podemos seguir em frente, quando podemos recuar e quando ceder é mais efetivo. Nos faz querer outro mundo, outro país, outras condições de vida e as melhores relações afetivas.

espalhe-amor-por-aiSem amor e sem consciência não há luta por igualdade, por democracia, por diversidade, por respeito aos direitos humanos. Sem amor não conseguimos transformar a realidade em algo melhor, mais bonito, mais eficaz para todos. Falta amorosidade em nós e no mundo e isso está nos perdendo.

Uma nova ideologia é necessária, essencial, imprescindível, urgente, a ideologia do amor. Para isso é preciso que tenhamos coragem de olhar para nós mesmos e vermos que o nosso maior inimigo está em nós, o ódio que abrigamos e jogamos nas costas dos outros é nosso.

A ideologia do amor fará diferença com a consciência de que temos dentro de nós amor e ódio, sombra e luz e que podemos optar entre os dois. Quando o que sentimos não for mascarado, escondido e não mais jogarmos nossa frustração nos outros, conseguiremos nos abrir para o amor. Nada mais será o mesmo quando isso ocorrer…

Quando escrevo aqui para vocês me conscientizo ainda mais disso e me potencializo para o amor que está comigo, que está em vocês, que está em todos, sem que saibam e, me besunto dele para fazer um pouco a diferença, sem medo de parecer piegas.

Sou eu mesma e volto a infância nos tempos que minha mãe me dizia que o amor iria me fazer sofrer. Entendi definitivamente tudo. Faz sofrer mesmo, mostra a realidade da vida, mostra tudo que somos que não queremos assumir e nem queremos ver, mas, por isso mesmo alivia a alma e nos faz querer para os outros o mesmo que para nós. A experiência do amor liberta e, não há maior liberdade do que essa, ter a coragem de viver com o amor em nosso caminho.