Por José Antonio Garcia Lima no Facebook

Há dezenas de anos o Brasil pratica taxa de juros indecente, o que só interessa ao capital financeiro. A acumulação proporcionada por tal mecanismo é excludente, do ponto de vista social, e autofágica, do ponto de vista da economia.

Nunca o país assistiu ao crescimento da inflação por desequilíbrio da demanda e, no entanto, na maioria do tempo adotou o maldito remédio recomendado por interesses escusos: aumente-se, sempre, a taxa de juros!

Tudo o que se obteve com isto, por anos a fio, foi uma brutal transferência de renda, das camadas médias e pobres da população, para o sempre gordo e risonho sistema financeiro.

Num breve hiato, durante os anos de governo do Presidente Lula e nos do primeiro mandato de Dilma, pretendeu-se diminuir tal fluxo e providenciar alguns canais de modesta distribuição de parte desta renda.

Tão cruel era a realidade que, por tímida que fosse a alteração no padrão de acumulação ordinário, os efeitos foram notáveis. O que se viu, então, foi um redesenho do cenário da exploração habitual do trabalho e a completa modificação no padrão de consumo de bens e serviços. Os que nada possuíam foram buscar adquirir o mínimo para uma existência digna e alterou-se profundamente a troca de olhares entre os antes poucos donos de tudo e os muitos apenas e tão somente miseráveis.

Minha casa minha vida2

Os relatos cômicos de “patroas” ofendidas pelas “empregadas” que dispunham de telefones celulares idênticos davam conta do abalo das relações entre a casa grande e senzala. Ou os contos sobre os aeroportos que passaram a reproduzir cenários de rodoviárias. Ou,o pior e mais significativo destes relatos, as repetidas queixas das senhoras que já não dispunham da oferta abundante e barata das prestadoras do serviço doméstico, fundamental para a manutenção da cultura escravista da nossa doentia classe média.

Mas mais significativo do que a reação, de resto esperada, da classe dominante e suas franjas do olhar esperançoso e da cobiça de um dia também habitar o Jardim Pernambuco, foi o fato de a capacidade de produção ter podido absorver a demanda surgida sem que ocorresse explosão inflacionária alguma. O cenário parecia favorável ao abandono da tradicional política de juros extorsivos e à inversão do fluxo de destinação da riqueza gerada no país.

Então os efeitos da crise de 2008 chegam às praias de cá, mansa, mas ameaçadoramente. Surgia, assim, a oportunidade esperada ansiosamente pela elite mais vagabunda e cruel do planeta para dar um basta na pretensão de transformações que o projeto que elegeu Lula, por duas vezes, e o faria também com Dilma, apontava conseguir.

À ofensiva político-judiciária disparada desde 2005, com a farsa do mensalão, cujas condenações exigidas desde o seu início por seus patrocinadores e operadores, os barões da mídia, proprietários tradicionais dos principais organismos de comunicação do país, estavam sendo providenciadas no midiático julgamento que vinha transcorrendo como um verdadeiro reality show no STF, somaram, então, a deletéria campanha da “crise econômica terminal”, agudizada pelo planejado e insidioso ataque à Petrobrás, um dos principais símbolos da postura altaneira do país no plano internacional, cuja participação no PIB nacional, considerada a cadeia produtiva do setor como um todo, incluindo os fornecedores, beirava, há pouco, 15%.

Para tanto, um novo espetáculo midiático é providenciado e o Homem da Camisa Preta e seus Obsequiosos e Seletivos Cães Farejadores surgem para estrondear a Operação Lava Jato, propalada como destinada a lavar toda a corrupção do país e, adicionalmente, sem que isto fosse enunciado, quebrar a Petrobrás e, com ela, boa parte da capacidade de geração de riqueza no país.

Convém lembrar que descobertas de reservas de petróleo na chamada camada do pré-sal, resultado da inversão da política de investimentos na capacidade de produção e prospecção da empresa, e a destinação constitucional de boa parte dos recursos daí gerados para políticas públicas de educação e desenvolvimento tecnológico apontavam o surgimento, em uns poucos anos, de um país absolutamente transformado e que iria romper, decisivamente, os grilhões da exploração e da humilhação da maioria de seu povo.

Tragicamente, vem vencendo, até aqui, os que apostaram no desmonte das recentes políticas de fortalecimento do país e da quitação da enorme e histórica dívida social acumulada desde o seu surgimento como nação.

A crise, artificialmente inflada pelas campanhas de disseminação de desalento, desesperança e tristeza, sistematicamente operadas pelos tradicionais meios de comunicação há pelo menos dez anos, vai-se impondo e ameaça fazer desaparecer o pequeno avanço social conquistado desde 2003.

A disputa política, cujos idealizadores e operadores, sem pudores e limites, se permitem indicar e organizar golpes de toda a ordem na busca da interrupção de governo legal e legitimamente constituído, com justificativas torpes e descabidas, assume dimensão apocalíptica. O país paralisado assiste a dramática desaceleração da atividade econômica.

Os articuladores do golpe comemoram. Os meios de comunicação não dão qualquer descanso. Com a água suja jogada fora, que se vá a criança. Tudo podem para alcançar os seus objetivos! Importa é desestabilizar o cenário e abalar o público para que a intervenção restauradora da ordem e dos bons costumes, redentora, seja justificada, desejada e aplaudida.

Neste cenário, os sempre atentos capitalistas do setor financeiro, cuja única vocação e objetivo desejo é ganhar todo o dinheiro possível, e que dizem não ter coisa alguma a ver com as querelas políticas – e há os que crêem nisto! -, providenciam restaurar o ambiente que lhes é ideal e põe em tela as discussões sobre como assegurar um ambiente estável e bom para a economia e, para tanto, providencie-se…aumento de juros!

E outra vez é o que temos. Em detrimento da hipótese de crescimento da economia e, em consequência, dos níveis de emprego e distribuição de renda, interesse do conjunto da população, cá vamos assistindo a malfadada e confortável acumulação por parte dos senhores banqueiros da riqueza nacional. E, irônica e surpreendentemente, também assistimos a decantada pretensão de controle do déficit público ser impossibilitada pela volumosa transferência de recursos para a burra da banca financeira, fruto da estúpida política de juros estratosféricos.

Em tal quadro, defender a normalidade democrática e dizer não aos golpes tramados pelos canalhas de sempre não pode ser confundido com a defesa da política econômica praticada pelo governo federal, especialmente à relativa aos juros idiotas e corrosivos.

Fique Dilma, mas mude urgentemente a política econômica e pratique justiça fiscal com a adoção de impostos progressivos!

Pra fora Cunha, e vá pro inferno com todos os golpistas e os rentistas que engordam com a fome e a miséria dos muitos!

Que o Brasil democrático seja grande, soberano e rico para os muitos brasileiros ainda pobres e todos os que são capazes de aceitar e contribuir para a construção de uma sociedade justa, sem humilhação e exploração de qualquer um!