Por Saul Leblon no site Carta Maior

O que falta para o governo federal definir uma agenda de conferências nacionais de ampla participação social, sobre temas nevrálgicos para o país? Nada.

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As celebrações da queda do muro de Berlim, neste 25º ano, careceram do brilho e do triunfalismo observado em outros aniversários. A opacidade das imagens épicas não traduz apenas o escorrer do tempo. Nunca a hegemonia dos chamados livres mercados foi tão radical quanto nesse quarto de século pós-muro. E nunca suas promessas foram tão desmentidas pelos fatos. Sobretudo a partir do colapso da ordem neoliberal, em 2008.

Não se sanciona aqui o regime autoritário-burocrático do extinto sistema intramuros. Importa reter, porém, que não se confirmaram as promessas de fastígio econômico, convergência social, cidadania plena e mesmo de paz mundial, em uma geopolítica supostamente saneada da tensão da guerra fria. Em muitos casos, vive-se o inverso.

A dieta de arrocho e desemprego imposta às populações europeias nos dias que correm seria impensável no mundo anterior a 9 de novembro de 1989. O desmonte do Estado do Bem Estar Social europeu, acelerado a partir de então, não apenas subtraiu uma estaca de resistência da civilização à voragem capitalista.

Ao reduzir o lado de dentro do Muro a um caso de patologia do horror, no dizer do filósofo italiano Domenico Losurdo, desqualificou-se, simultaneamente, a crítica de esquerda à degeneração soviética e à degradação capitalista subsequente.

O que se deu é sabido: os limites da democracia liberal ascenderam à condição de fim da história legitimando-se a captura definitiva do sistema político pelo poder econômico.

Qualquer dissonância seria carimbada, a partir de então, como fanatismo religioso, terrorismo ou corrupção. O Estado e a ação estatal ganharam uma cruz no peito: zumbis. A insistência em resgatá-los estaria condenada a repetir a matriz de ineficiência econômica, corrupção e repressão política.

Não é um vaticínio. É uma interdição à escolha das urnas.

Sob o martelete desse imperativo a agenda de amplos setores da esquerda rendeu-se incondicionalmente aos ditames do neoliberalismo econômico.

O que sobrou encontraria dificuldades para conciliar a genuflexão estratégica com bandeiras libertárias na esfera da democracia, dos costumes e do meio ambiente.

Como regular o clima, doce Marina, se a governança do mundo cabe ao Banco Central independente e às finanças desreguladas?

Tornou-se deselegante dar ao capitalismo o seu nome e as suas consequências.

Um gigantesco aparato de capilaridade inexcedível opera em todas as latitudes para desautorizar a aposta em qualquer lógica alternativa a essa que, em 2008, arrastou o capitalismo a sua maior crise em oitenta anos.

Não importa. Tudo o que não é mercado é corrupção. Tudo o que não é mercado é ineficiência. É bolivarianismo, déficit e crise.

Assinado: mercados, mídia, togas e epígonos.

O maçarico que derrete votos em interditos está em plena operação num Brasil que acaba de rejeitar nas urnas a fatalidade da restauração neoliberal.

A amnésia histórica nunca foi tão providencial aos derrotados.

É forçoso relembrar, portanto, inclusive a setores progressistas. A democracia é uma forma de Estado. Sua forma atual no Brasil permite aos Cunhas & Itaús afogarem o país na lavagem cerebral aspergida sobre a luta política com mais força desde a queda do Muro, em 1989. Tudo se passa como se não houvesse amanhã.

Para isso é preciso naturalizar o fato de que a liberdade irrestrita dos mercados implica a servidão das nações.

A mesma amnésia histórica leva o jornalismo isento a ‘esquecer’ que o desmonte global de direitos sociais após a queda do Muro de Berlim, assim como o avanço da desigualdade e a desregulação financeira compõem os fatores seminais da crise econômica global que ocorreria dezenove anos depois.

Se depender do conservadorismo, o segundo governo Dilma será soterrado pela lógica que anexou a derrubada do Muro de Berlim ao seu acervo simbólico.

Serão tempos extraordinários. Para os quais as ferramentas da rotina não servem mais.

Caberá ao governo e as forças progressistas brasileiras o desassombro de reinventá-las.

Questões concretas, que contribuam para derrubar o muro da dispersão progressista devem ter prioridade em lugar de temas esgotantes e pouco factíveis a atual correlação de forças.

Por exemplo: o que falta para o governo definir uma agenda de conferencias nacionais de ampla participação social, em 2015, sobre temas palpitantes da atualidade brasileira?

Nada. Não é preciso a anuência do senhor Cunha, nem a simpatia de Aécio.

Ainda: o fim do financiamento empresarial de campanhas pode mudar a dinâmica eleitoral e institucional? Pode.

Tem o apelo popular de impedir o tubarão de fraudar a vontade das sardinhas? Tem. Então talvez seja prioridade em relação a revisões ciclópicas pouco críveis.

Outra: a regulação da mídia une as forças progressistas com potencial para se constituir em um amplo movimento de legitimidade democrática incontestável pelos Cunhas & Aécios? Sim.

Então cumpre estruturar sua articulação imediatamente.

Uma campanha de redução dos juros, de modo a que o Estado disponha de recursos adicionais para investir em qualidade de vida urbana e rural une o campo progressista e engendra outra lógica de desenvolvimento?

Sim. Pode, inclusive, sedimentar, na prática, uma frente de esquerda a partir dessa bandeira. Então cumpre organizá-la.

São apenas exemplos. Mas, enlaçados a um mesmo potencial cuja pertinência não pode mais ser negligenciada: derrubar o muro da amnésia histórica com a força da mobilização política esclarecedora.