O economista francês Alain Lipietz (2000) observou que, no capitalismo, há uma forte semelhança entre os aspectos sociais e ecológicos: como a natureza, os trabalhadores são afetados pelas tendências à expansão da produção e à criação de valores capitalistas. Portanto, é do interesse dos trabalhadores e da proteção ambiental conter ou superar essas tendências.

No entanto, este é apenas um lado da moeda. O outro é a relação mais contraditória entre o trabalho e o meio ambiente, sobretudo no que diz respeito aos países de industrialização precoce — a própria reprodução da classe operária como parte das sociedades capitalistas do Norte Global se baseia na destruição socioambiental. (Com isto não estamos negando que o impacto ambiental dos ricos supera amplamente o das classes subalternas).O acordo fundamental entre o trabalho e o capital é baseado na disposição do trabalho de aceitar sua subordinação ao capital, sob condição de sua participação no aumento do bem-estar material possibilitado pela economia capitalista em crescimento. No entanto, o crescimento do bem-estar implica o acesso aos recursos e sua extração, gerando emissões que devem ser absorvidas por sumidouros naturais (como florestas e oceanos, no caso de CO2), e significa, também, a exploração do trabalho em outras partes do mundo.

Isso pode ser especialmente importante em tempos de crise. As tensões sociais muito limitadas nos países do centro capitalista a partir de 2008 surgem fundamentalmente do fato de que, diferentemente de muitos países do sul e do leste europeu e do Sul Global, a reprodução das classes subalternas nunca tinha sido seriamente posta em causa, devido à beneficiação, por parte dos países do centro capitalista, de uma ordem internacional injusta que lhes garante o acesso ilimitado à natureza e à força de trabalho mais barata.

O modo de vida imperial

Temos chamado esta constelação “o modo de vida imperial” (Brand e Wissen, 2017a, 2017b). Integra a institucionalidade de uma ordem geopolítica assimétrica que tem o apoio da força econômica e militar dos países do Norte Global. De suas raízes na contradição entre o capital e o trabalho, o modo de vida imperial estabelece vínculos desiguais entre as forças de trabalho nas diferentes partes do mundo.

Não é verdade que os trabalhadores dos países do centro capitalista aplaudam conscientemente a subordinação de seus companheiros do Sul Global. Em vez disso, é a necessidade de vender sua capacidade de trabalho no mercado que obriga os trabalhadores do norte a adotar o modo de vida imperial e, ao mesmo tempo, lhes permite dele se beneficiar: graças à matéria-prima e aos baratos produtos de base dos países do sul que são transformados ou refinados em fábricas do norte; graças às infraestruturas de comunicação e de transporte que facilitam a produção e a mobilidade no Norte Global, as quais não seriam possíveis sem os recursos do sul e a força de trabalho barata que os extrai; graças às commodities, como alimentos e roupas, cujos baixos preços facilitam a satisfação das necessidades básicas no Norte Global por meio da superexploração da natureza e dos trabalhadores no Sul Global.

Generalização em nível social e propagação global

Até a primeira metade do século XX, o modo de vida imperial estava fortemente restrito ao consumo de luxo das classes altas e médias. A participação dos trabalhadores foi marginal, por exemplo, através do consumo de açúcar das colônias europeias, que forneceu a energia necessária para os trabalhadores superexplorados do século XIX e início do século XX.

As coisas começaram a mudar a partir do acordo fordista entre as classes após a Segunda Guerra Mundial. Por causa das lutas dos trabalhadores e seu crescente poder estrutural e de organização, da economia em desenvolvimento dinâmico e da vinculação dos salários à crescente produtividade do trabalho, uma alta porcentagem da classe operária do norte teve a oportunidade de comprar e consumir produtos em variedade e escala nunca antes vistas. Como consequência, generalizou-se o modo de vida imperial no Norte Global. Televisores, carros, geladeiras e máquinas de lavar se tornaram presentes no cotidiano das casas das classes trabalhadora e média e nele deixaram sua marca. Facilitaram a reprodução da classe trabalhadora, enquanto perpetuaram, e até reforçaram, as relações de gênero patriarcais e a ordem internacional neocolonial. Sem os recursos, os sumidouros e a força de trabalho do Sul Global, a produção dos produtos de consumo duráveis do fordismo teria sido impossível.

No transcurso da globalização — ou seja, na nova divisão internacional do trabalho a partir da revolução das altas tecnologias e do deslocamento das relações de poder —, o modo de vida imperial se aprofundou no Norte Global, enquanto se espalhou para o Sul Global, onde a crescente classe média adotou os padrões de consumo de suas contrapartes do norte. As dramáticas consequências socioambientais podem ser vistas em cidades como Pequim, mas também no aumento das tensões ecoimperiais.

O modo de vida imperial não se baseia unicamente na acumulação capitalista, mas também em uma esfera externa: em territórios não integrados ao capitalismo ou de menor desenvolvimento relativo que podem ser apropriados e avaliados e sobre os quais é possível infligir o custo socioambiental dos padrões de produção e consumo insustentáveis. A sua propagação global implica que a sociedade se torne cada vez mais dependente de tais esferas. O açambarcamento de terras na África, Ásia e América Latina, os conflitos em relação aos recursos de águas profundas e as controvérsias relativas às cotas de emissão na política de clima internacional são apenas alguns exemplos das tensões que surgem a partir do modo de vida imperial globalizado, que ameaçam aumentar a superexploração dos trabalhadores e da natureza, as migrações forçadas e a ameaça de conflitos armados.

A superação do modo de vida imperial

Os trabalhadores do Sul e do Norte Global estão perante o desafio de se unir em torno de novos conceitos de uma boa vida. São necessários padrões de produção e consumo que já não se baseiem na destruição da natureza e na exploração da força de trabalho. O dogma da competitividade nacional deve ser substituído pela busca da solidariedade internacional.

Há muitas experiências das quais se pode aprender, como a campanha “Un millón de compromisos por el clima”, os Sindicatos pela democracia energética nos Estados Unidos, as lutas pela democracia econômica e a produção alternativa que os trabalhadores do norte travaram, por exemplo, nas décadas de 1970 e 1980. Entre os seus denominadores comuns, observa-se, em primeiro lugar, a abordagem orientada pelos valores: fundamental para superar o “dilema trabalho ou ambiente” (Räthzel e Uzzel, 2011). A produção não deve ser impulsionada pelo objetivo da maximização do lucro; deve-se superar o imperativo estrutural de criar novas necessidades continuamente, apenas gerados os meios para sua satisfação; e devem ser feitos esforços para negociar democraticamente o que e o quanto será necessário para garantir uma boa vida para todos que esteja em consonância com os requerimentos reprodutivos da natureza. Nos países do centro capitalista, um passo nessa direção seria uma estratégia sindical que colocasse maior ênfase na redução do tempo de trabalho.

Em segundo lugar, a luta dos trabalhadores e dos sindicatos terá de ir além da esfera da produção para se juntar à batalha pela justiça ambiental, direitos dos refugiados e igualdade de gênero. Trata-se, por um lado, de uma questão que concerne ao poder estrutural e de organização. A articulação dessas lutas não é fácil, mas realça a capacidade das forças sociais emancipatórias. Por outro lado, estamos diante de um processo de aprendizagem mútua, de transformação de subjetividades e de implementação experimental de alternativas. Como Räthzel e Uzzel (2011:1221) explicaram, “os sindicatos devem reinventar-se como movimentos sociais cuja responsabilidade não se limite às condições de trabalho de seus afiliados, mas também abarque suas condições de vida em geral”. Será, portanto, necessário “demolir o muro invisível que separa os trabalhadores como trabalhadores em um posto de trabalho dos trabalhadores como cidadãos fora de seus locais de trabalho”.

Em terceiro lugar, consideramos que a democratização radical é necessária como um fim em si mesmo, mas também como ferramenta para buscar novas alianças sociais e padrões de produção e consumo. O recente crescimento da extrema direita em muitas partes do Norte Global refletiu a grave crise pela qual passa a democracia liberal. As sociedades do Norte Global, muito especificamente, encontram-se em um ponto de inflexão: ou se dirigem à direita, para seguir o caminho da estabilização exclusiva e autoritária do modo de vida imperial — o que significa, por exemplo, a fortaleza Europa contra os migrantes e refugiados ou Donald Trump —; ou vão à esquerda, para iniciar uma transformação completa de seus padrões de produção, consumo e vida. Para isso será indispensável uma radicalização da democracia, ou seja, a sua expansão para o centro econômico do poder social do qual tem sido excluída até agora.

Este desafio é especialmente dirigido a trabalhadores e sindicatos do Norte Global: poderão aprender uns dos outros, a partir de suas próprias experiências e da luta de seus companheiros no Sul Global.

Por Ulrich Brand, professor de Ciência Política da Universidade de Viena e Markus Wissen, professor de Ciências Sociais da Berlin School of Economics and Law.