Por Roniel Sampaio da Silva no site Café com Sociologia

Certa ocasião, ouvi um ex-professor comentar que o mundo só poderia ser tal qual é porque o nosso sistema econômico e social é compatível com a essência humana. “Apenas o capitalismo dá certo porque o ser humano é puramente egoísta, narcisista e essencialmente competitivo.” 

Alguns anos depois, procuro respostas na Biologia e na Psicologia. Encontro alguns respostas diferentes das quais meu professor argumentou. Não penso que o egoísmo seja constituinte de uma essência humana majoritariamente. O homem e a mulher são ambivalentes.

Se por um lado existe uma região no cérebro responsável pela agressividade, territoriedade, hierarquia, lideranças que na árvore filogenética surge a partir dos répteis répteis – o hipotálamo. Daí vem a expressão “matou a sangue-frio”, numa alusão a frieza dos répteis. Da mesma forma existem estruturas biológicas que favorecem o cooperativismo entre as espécies – sulco temporal. Esse foi o fator de relevo na evolução da espécie humana segundo Piotr Kropotkiin. Portanto, o sistema límbico humano  dá suporte tanto para nos comportamos de maneira egoísta como altruísta. Claro, que o sistema líbico é bem mais complexo que isso, todavia, o fato é que existe suporte biológico para relações tanto de competição quanto de cooperação, tanto altruístas como egoístas.

Desta forma, podemos dizer que tanto o egoísmo e altruísmo fazem parte da condição humana. O meio (físico e social), atrelado à economia, educação, cultura e política faz com que determinada característica possa ser mais evidente que a outra. Assim, cria-se a falsa percepção de que o egoísmo faz parte de uma essência hegemônica natural dos seres humanos, fato que explica as mazelas sociais as quais estamos inseridos de uma sociedade pautada na competição e no individualismo. É como se a realidade tal qual é fosse a única possível porque somos exclusivamente egoístas. Somos, até certo ponto. Mas também temos fortes estruturas biológicas evolutivas que nos nos dão condições para para o senso de coletividade.  Seguir o caminho do altruísmo ou do egoísmo numa humanidade à beira de uma possibilidade de colaso gerado pelas mazelas sociais será um grande teste para saber se a espécie humana merece ou não ser perpetuada.

Vale destacar que essas constatações da ciência já eram especuladas muitos anos antes por sociedades tradicionais. Para finalizar, um diálogo entre e um índio do povo Cherokee e seu neto:

Dentro de mim existem dois lobos. “É uma luta terrível e é dois lobos antagônicos. Um é mau – Ele é a raiva, inveja, tristeza, desgosto, cobiça, arrogância, auto-piedade, culpa, ressentimento, inferioridade, mentiras, orgulho falso, superioridade e ego.Ele continuou: “O outro é bom – ele é alegria, paz, amor, esperança, serenidade, humildade, bondade, benevolência, empatia, generosidade, verdade, compaixão e fé. Esta batalha está acontecendo dentro de você. – E dentro das outras pessoas também. O neto pensou sobre isso por um minuto e depois e perguntou ao seu avô: “Qual lobo vai ganhar?” 

O velho Cherokee simplesmente respondeu: “O que você alimenta.”