Quando vi os tanques de guerra entrando no morro, não pude deixar de pensar no verão, 40º C na sombra, a gente sem água por mais de uma semana, tendo muitas vezes que chegar do trabalho e procurar forças pra buscar água no poço ou numa fonte pra tomar banho, fazer comida, lavar a louça. Nos dias sem luz, aquele calor, aquele suor, o ventilador parado, o medo de estragar a comida na geladeira. Naquele menino de dez anos que começa a flertar com o trafico enquanto a mãe está no trabalho. Naquele projeto de futebol, surfe, judô, teatro, música, entre tantos outros, interrompidos pela falta de recursos.

Fiquei pensando.

Nessas horas, onde é que esteve o Governo do Estado do Rio de Janeiro? Uma coisa é certa, já estamos acostumados a nos virar por conta própria. A arquitetura do morro, desde os becos, vielas e escadas, até as casas, igrejas, mercados, é a maior prova disso.

Aquele vizinho que te empresta uma tomada pra ligar a geladeira e preservar seus alimentos, aquela vizinha que te avisa que está caindo água e faz questão de lembrar que não se pode esquecer de encher os baldes; mostram que apesar de tudo, não estamos sozinhos.

Os tanques de guerra subindo, os caveirões passando, continuei pensando: o que realmente motivou essa ação militar tão repentina? Vieram várias respostas na cabeça: o fato da Rocinha estar no caminho entre Gávea e São Conrado, entre São Conrado e Barra, o Rock in Rio, os alunos da Escola Americana, do Teresiano, da Escola Parque sem aula, a PUC fechada, o circo televisivo batizado pelos próprios jornalistas de cobertura completa, enfim, muitas coisas, mas em momento algum, cheguei a pensar que pudesse ser em defesa do morador. Até porque, qualquer um com um pouco de boa vontade, pode perceber que uma ação militar convocada assim, de uma hora pra outra, sem nenhuma estratégia desenvolvida, e que usa como braço armado soldados que não conhecem a geografia do lugar e tampouco a dimensão do conflito em que estão se metendo, pode servir pra tudo, menos pra proteger o morador.

Nessas horas, é impossível não lembrar da UPP ocupando o morro. No BOPE metendo o pé na nossa porta, revirando tudo, perguntando onde é que arrumamos dinheiro pra comprar nossas coisas, exigindo nota fiscal. Tudo isso por nada, já que a quantidade de armas e drogas apreendidas nesse período foi baixa, e não demorou muito pro tráfico recuperar a mesma força de antes.

Esse filme está se repetindo agora mesmo. Com o menino de treze anos recém chegado do nordeste, que teve a casa invadida por policiais logo depois da mãe sair pro trabalho, e não sabendo responder a tantas perguntas acabou com o braço quebrado. Com os muitos moradores que enviaram fotos para a página Rocinha em Foco, denunciando a ação dos policiais, mostrando suas portas arrombadas, suas casas todas reviradas. E em meio a tudo isso, ainda somos obrigados a ver, no espaço virtual que usamos pra nos atualizar e de certa forma, cuidarmos uns dos outros, pessoas (a grande maioria utilizando um perfil fake) xingando esses moradores, dizendo que querem denunciar os policiais militares mas não querem denunciar os traficantes.

Sim, chegamos ao ponto em que grande parte da população acha super natural comparar a segurança pública com o crime organizado. Ninguém que aponta o dedo tem ideia de como dói ter os direitos violados, passar os dias ouvindo a bala cantar, carregar essa sensação de impotência, e ainda por cima, sair como culpado.

Já que comecei a falar dos comentários que recebemos de fora, não posso deixar passar batido a cobertura ostensiva da televisão, que conseguiu passar um dia inteiro sem nos dar nenhuma informação relevante e ainda faz questão de lembrar a todo momento o quanto estavam sofrendo os cariocas que precisavam passar por aquele pedaço da cidade. O nosso pedaço de cidade.

Nesse mesmo dia em que os tanques de guerra entraram na Rocinha, vi na internet uma matéria de um jornal português sobre a Cia Marginal, grupo de teatro formado no Complexo da Maré, onde destacavam a seguinte frase: A violência está no mundo. Não nas favelas. Nada pode ser mais simples: é impossível separar as favelas do mundo, esquecer que elas fazem parte de uma cidade, estado, país, é impossível ignorar seus contextos e tudo o que aconteceu até chegar nesse momento.

No entanto, lembrando de tudo o que disse o governador, o chefe de segurança pública, os jornalistas na televisão, os fakes com fotos de militares, concluí que é exatamente isso o que estão tentando fazer desde sempre. Separar a favela do mundo.

Por Geovani Martins, 26 anos, morador da Rocinha e escritor.