Na edição do jornal francês  Le Monde do dia 31.08.2017 o antropólogo Emmanuel Todd oferece uma explicação da crise, econômica e democrática, que afeta o Ocidente.

Por que as democracias ocidentais mudam, na imagem dos Estados Unidos, em formas de regressão? Como podemos explicar o “estranho sentimento de desamparo” que atinge o Ocidente enquanto a globalização e as revoluções tecnológicas pareciam dever oferecer dias gloriosos? O historiador e antropólogo Emmanuel Todd faz sua contribuição em um livro que será comentado e contestado, mas que ilumina esse momento muito especial na história em que Trump e Putin triunfam e onde os sonhos igualitários se quebram. Os fatores-chave nesta crise democrática? A “estagnação educacional”, em particular, minou profundamente os equilíbrios das sociedades ocidentais e preparou a explosão das desigualdades econômicas.

A terceira revolução educativa

No início do século XX, os Estados Unidos eram apenas um país protestante avançado em  relação aos outros.  A produção interna bruta (PIB), em geral, tinha superado os dos dois principais países da lista: Alemanha e Reino Unido; já em 1913, o PIB norte-americano superava em 12% a soma dos PIB desses dois países. A contribuição tecnológica dos Estados Unidos para a segunda revolução industrial – combinando eletricidade, automotivo e aviação – deveria ser significativa tanto em termos de design de produto quanto de padronização de produção, como evidenciado pela fabricação do Ford T, por linha de montagem, a partir de 1908.

Mas as universidades que contavam e as pesquisas científicas ainda eram o trabalho da Europa e, cada vez mais, da Alemanha. Além disso, em 1900, a América era apenas 40% urbanizada, como a França, enquanto as cidades do Reino Unido representavam 77% de sua população. A riqueza global dos Estados Unidos foi em grande parte devida ao seu tamanho: 76 milhões de habitantes já em 1900 contra 56 na Alemanha, 38 no Reino Unido ou na França. A população americana, à época alfabetizada com 95%, possuia recursos naturais superiores aos dos outros povos da Europa. Em 1900, portanto, os Estados Unidos eram mais extensos, mais populosos, mais rurais e mais ricos que os outros países protestantes.

No entanto, foi nos Estados Unidos que o primeiro desenvolvimento maciço do ensino secundário ocorreu, entre 1900 e 1940, ou seja, educação que ultrapassou o aprendizado de leitura e capacidade de contar. Foi então nessa época que a América assumiu a liderança no desenvolvimento global. A taxa de matrícula na escola secundária (ensino médio) ainda era apenas 10% em torno de 1900; atingiu 70% até 1940. A taxa de graduação entre essas duas datas foi de 6% a 50%. (…) Quando os Estados Unidos entraram na guerra em 1941, a metade da juventude já havia completado o ensino secundário. A Europa, incluindo os países protestantes, estava e continuava para trás, relegada ao subdesenvolvimento relativo da educação primária, mesmo onde todos sabiam ler.

Logo depois da Segunda Guerra Mundial, o movimento de ascensão continuou com uma terceira revolução educacional, esta vez na área do ensino superior. Em 1900, apenas 3% dos homens e 2% das mulheres de 25 anos tinham atingido esse estágio e obtiveram o Bachelor of Arts (BA); em 1940, já era o caso de 7,5% dos homens e 5% das mulheres; em 1975, 27% dos homens e 22,5% das mulheres. (…).

Quando esses níveis foram alcançados, o modelo de desenvolvimento para toda a educação – aplicável quase perfeitamente ao primário e quase ao secundário – perdeu a sua validade. A expansão parou. Entre 1980 e 1985, a taxa de obtenção de um BA também caiu para 22,5% para os homens e se estabilizou no mesmo nível para as mulheres. Em seguida, aumentou novamente para cerca de 30 % para os homens e 35 % para as mulheres em 2000, o que levou a um fenômeno que podia ser observado mais tarde na maioria dos países que vieram a realizar  essa revolução no ensino superior. (…)

A estagnação educacional

Devemos estar cientes da importância histórica dessa estagnação. Desde 1900, os Estados Unidos lideraram na área da educação. Se concluíssemos essa análise estatística em termos hegelianos, deveríamos admitir haver sido atingido o ponto máximo da humanidade em nível de desenvolvimento da mente. Nesse sentido, a estagnação dos Estados Unidos é uma estagnação para todos nós, como seres humanos, uma vez que  nenhum país jamais excedeu o nível por eles obtido. A questão relevante se trata do estabelecimento de um limite para a elevação do nível educacional da humanidade.

O exame dos países seguidores nos permite, até um certo ponto, verificar já a universalidade desse teto que pode ser  apenas temporário. Na França, por exemplo, o estágio de estagnação foi alcançado em 1995 para indivíduos de 25 anos, cerca de trinta anos após a América, um efeito da decolagem posterior do ensino superior no país ( Hexágono…). 

Uma declaração empírica de estagnação educacional não deve nos levar a uma interpretação de tipo moralista e nos  reverter  ao tema de uma decadência intelectual que seria induzida pela degradação da moral. A estagnação educacional americana não foi, de fato, uma consequência da revolução libertária da década de 1960.

As gerações afetadas pela estagnação, e mesmo pelo declínio parcial do nível, resultam das famílias nucleares ultraconformistas das décadas de 1940-1960. Uma sequência histórica nos permite observar que os indicadores “morais” (no sentido formal tradicional), como a fertilidade ou a proporção de nascimentos fora do casamento, começaram a se mover significativamente só a partir dos anos 1960-1965 – para baixo no caso da fertilidade, enquanto a proporção de nascimentos fora do casamento aumentaram. (…)

O desenvolvimento do ensino superior,  inicialmente uma consequência da expansão da educação primária e secundária, foi considerado um mero progresso. Ninguém percebeu que o aumento da população estudantil quebraria a homogeneidade do corpo social. A nova estratificação cultural não foi percebida até que se percebesse que a população toda não alcançaria a categoria privilegiada dos mais educados.

O acesso universal à educação primária e secundária tinha promovido um subconsciente social igualitário e democrático; o limite da educação superior engendrou, nos Estados Unidos e em outros lugares, um subconsciente social desigual. (…) A distribuição dos mais de 25 anos revela uma sociedade dos EUA dominada pela educação primária e secundária em 1980, embora 30% da população já se beneficie de algum tipo de ensino superior.

A massa central era então secundária, sendo que a educação primária não era mais do que uma categoria residual. Em tal sociedade, a alfabetização – o horizonte igualitário do século XIX –  não era mais testemunha de uma adesão ao corpo de cidadãos, mas a um status inferior característico.

Com ou sem diploma

A Segunda Guerra Mundial foi um grande momento de igualitarismo para a sociedade americana, talvez até um símbolo da maturidade da social-democracia de Roosevelt. O ensino secundário já era quase universal; o sucesso do ensino superior começou quando todos os jovens americanos estavam matriculados em nome do recrutamento universal. (…) Foi durante a Guerra do Vietnã que apareceu a oposição entre o aluno e o trabalhador, entre o “superior” e o “secundário” educado nos Estados Unidos.

Quando tentamos situar quando surgiu o mesmo antagonismo cultural na França, achamos que é mais tardio, porque o desenvolvimento do superior e o princípio da sua estagnação aconteceram mais tarde.

Na França, a solidariedade dos dois mundos da esquerda ainda estava viva em 1968: os trabalhadores entraram em greve após a revolta estudantil. Ainda havia condescendência para o verdadeiro mundo da classe trabalhadora e seu Partido Comunista apenas do lado de certos esquerdistas – da obediência trotskista em geral. A oposição entre a classe trabalhadora e as classes educadas não foi confirmada em França até vinte e quatro anos depois, durante o debate sobre o Tratado de Maastricht de 1992. Mas naquela época o confronto era particularmente claro, o discurso dos atores testemunhava as divisões entre a classe trabalhadora e a classe média, entre as pessoas e as elites.

Essas elites não eram no momento da maioria, mas já formavam grupos consideráveis, e os estudos superiores produziram na França 33% dos diplomados de nível de licence por geração. A estagnação educacional na França estava se aproximando. É mensurável em torno de 1995. Na França, como nos Estados Unidos, uma coincidência temporal aproximada entre o início da estagnação educacional e o surgimento de uma percepção da sociedade como estratificada era evidente. (…)

Já em 1968, nos Estados Unidos, o subconsciente educacional desigual estava no lugar. A desigualdade econômica, por outro lado, permanecia baixa. Novamente, uma simples sequência histórica nos permitirá distinguir a causa do efeito: é o cultural que determinou o econômico. As curvas de evolução da receita sujeita a imposto, estabelecida por Emmanuel Saez e Thomas Piketty para o período 1913-2003, nos permitem datar o aumento da desigualdade econômica, que na verdade segue o da desigualdade educacional. (…)

1980 foi um ano crucial: antes dessa data, o aumento da riqueza do [mais rico] poderia ser interpretado como o efeito econômico normal do aumento do número de diplomados universitários na força de trabalho: e bem refletido na nova estratificação educacional. Mas pessoas que terminam a faculdade vêem suas novas habilidades recompensadas por maiores rendimentos. Permanecemos em um quadro interpretativo econômico clássico.

A partir de 1980, no entanto, a liberalização da renda dos mais ricos escapou do peso de qualquer racionalidade técnica ou econômica. 1980 é o ano da eleição de Reagan. O neoliberalismo assume o comando, em um clima de guerra social. A inflação alcançou 13,5 por cento em 1981. Paul Volcker [chefe do Fed na época] elevou a taxa de juros da Reserva Federal para 20% em junho de 1981. A taxa de inflação caiu para 3,2% em 1983.

Levaria muito tempo para listar aqui as medidas de desregulamentação do mercado de trabalho e a liberação de capital que criaram as condições para o aumento dos altos rendimentos e a estagnação de baixos rendimentos e o crescimento de desigualdades. Devemos nos contentar com a observação de que uma virada política violenta precedeu a emancipação dos ricos, um fenômeno absolutamente distinto do ligeiro aumento das desigualdades provocadas antes de 1980 pela nova estratificação de poderes sob o efeito da terceira revolução educacional.  Tudo isso foi uma evolução complexa, na qual o cultural, o ideológico e o político sempre precederam o econômico.

Após 1980, o aumento da desigualdade econômica é contínuo. A proporção de renda nacional capturada pelos 10% mais ricos aumentou de 32% em 1972 para 43% em 2002. A dos 1% dos  mais ricos cresceu de 8% para 17%. Em seguida, quase atingiu o seu nível recorde do início do século anterior, 18%. O crescimento das classes mais ricas, por um tempo interrompido pela grande recessão de 2008-2010, retoma desde então, como se nada decisivo tivesse realmente acontecido no campo econômico. (…)

Devemos notar o caráter irresistível da marcha em direção à desigualdade entre 1980 e 2015, assim como Tocqueville [1805-1859] teve que aceitar o aumento da igualdade em seu tempo como “providencial”. A revolução neoconservadora foi, até Donald Trump, insensível às contradições econômicas e sociais que engendrou, em um país que ainda tinha uma tradição “democrática” e onde os poderosos partidos políticos competiam pela votação.

É de fato esse caráter básico do movimento anti-igualitário que nos permite afirmar o primado de uma determinação pela educação e ideologia e pelo caráter derivado da evolução econômica. Uma mão invisível parecia guiar todas as decisões da política econômica para escolhas inegáveis ​​e ferozes. A opção do livre comércio completo, que colocava os trabalhadores americanos em concorrência com os trabalhadores do Terceiro Mundo pagos vinte ou trinta vezes menos do que eles, só poderia ser concebida e realizada em um mundo que já não acreditava em igualdade.”