Do site Outras Palavras por Rennan Martins

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O que Ignacio Ramonet, Immanuel Wallerstein e Thomas Piketty sugerem acerca dos impasses contemporâneos e o espaço existente para mudar o mundo.

O avanço da direita liberal-conservadora, iniciado após Pinochet, Thatcher e Reagan, foi de tamanho ímpeto que, na atualidade, a ascensão de um genuíno social-democrata, a saber, Rafael Correa, se dá num projeto político alcunhado Revolución Ciudadana. O espectro do debate político-econômico foi tão puxado pra direita, que propor um Estado de bem-estar social é revolucionário.

Correa, que tem mandato até 2017, já fala em emenda constitucional no tocante a reeleição. Tem consciência da dificuldade que é enfrentar a reação, cada vez mais inescrupulosa e virulenta.

Em discurso comemorativo ao aniversário da Revolução Liberal do Equador, ocorrida em 1895, as palavras mais enérgicas que proferiu foram em relação à imprensa corporativa, definida inúmeras vezes como “corrupta e corruptora”. O papel de oposição suja exercido pela grande mídia na América Latina é facilmente constatado em todos os países que questionam, ainda que minimamente, a abordagem econômica neoliberal. A própria Judith Brito, na época presidente da Associação Nacional de Jornais, admitiu.

Saindo do país vizinho e entrando em nossas fronteiras, o assunto reeleição, projeto político e mídia está ainda mais quente. Ignacio Ramonet, num texto intitulado Brasil, futebol e protestos, considerou que nas próximas eleições presidenciais brasileiras está em jogo não só o futuro do país, mas de todo o continente abaixo dos Estados Unidos. Segundo ele, há sinais, na atual conjuntura, de que somente por aqui há correlação de forças no sentido da construção de um regime mais inclusivo e participativo.

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Já no ano passado, Immanuel Wallerstein apontava, em Capitalismo, austeridade e saídas, que vivemos um período de bifurcação. Ela pode tanto resultar num regime mais autoritário, para garantir a opulência do 1%, quanto, no sentido inverso, produzir algo mais democrático e igualitário. Pontuou ele que a instabilidade produzida pelo capitalismo financeiro desregulado nos força a uma transição.

Soma-se a essa visão o livro Capital no Século XXI, de Thomas Piketty, que já entrou pra história, ao demonstrar, com estatísticas exaustivas, que o capitalismo é um regime oposto à democracia, pois paga melhor a riqueza que o trabalho, construindo então uma oligarquia.

A imprensa-empresa lançou seu time de articulistas, que de forma afobada têm tentado reduzir os danos dessas revelações. Porém, a histeria e insegurança que demonstram perante Piketty diz mais do que as críticas que dirigem a ele.

Em concomitância, assistimos aqui e ali a declarações de mea-culpa de algumas lideranças do capital. O jornal Valor Econômico publicou, em 27/5, artigo de Paul Polman, executivo-chefe da Unilever, e Lynn Forester de Rothschild, do E.L Rothschild. Seu texto diagnostica que a exclusão social maciça ameaça a ordem social. De forma intrigante, assumem que somente “uma ação conjunta de empresas e outras instituições” é capaz de construir uma alternativa a nosso modelo em crise.

Mas o que importa nesse ponto é o próximo passo a ser dado. Se diante da bifurcação continuarmos seguindo receitas excludentes, o resultado será o fortalecimento do autoritarismo e a consolidação da plutocracia, extinguindo o que ainda nos resta de democrático. Se, por outro lado, encamparmos a construção coletiva de um arranjo mais inclusivo e participativo, temos uma boa perspectiva.