Fico ouvindo algumas pessoas falando que o Brasil antes era melhor, que as pessoas eram melhores e que não tínhamos tantos conflitos como agora com o governo do PT.

Vejo muita gente inteligente “comprando” a história da mídia de que o Brasil era melhor porque vivíamos num país sem guerras nem violência, onde todos se davam bem, eram fraternos e solidários, não havia conflito racial nem de gênero e tudo andava as mil maravilhas, nos seus devidos lugares e que o governo de Lula e de Dilma trouxeram o conflito de classes, a violência e  a corrupção para o Brasil.

Triste alienação! Onde essa gente esteve durante todo esse tempo para dizer isso? Onde será que se formaram essas mentes? De que forma foram estruturados os pensamentos dessas pessoas? Será que elas acreditam mesmo nessa historinha da Carochinha? Pois, pasmem, muitos ainda acreditam.

A ideologia imposta pelos colonizadores que se perpetuou ao longo da história do Brasil continuou a fazer muita diferença durante os governos do golpe empresarial militar onde a escolarização feita através de escolas públicas e privadas priorizou uma forma de ensino que formatou as mentes para pensarem segundo um sistema civilizatório que privilegia as elites econômicas legitimando-as como se superiores fossem.

Os conflitos de classe sempre existiram no Brasil. E sempre foram combatidos com muita violência por grupos da elite que vem dominando esse país desde a colonização, se cristalizando no poder de várias formas.

Fomos colonizados em cima de muito sangue derramado. Aos verdadeiros habitantes da terra foram impostas as rédeas de uma cultura de exploração, espoliação, sofrimento e morte.  E todos nós nos criamos e nos formamos dentro desse caldo de violência.

Nos impuseram uma forma de vida, um jeito de ser. Cada um no seu lugar. Saímos da corte monárquica para um presidencialismo de favorecimentos. Fazendeiros donos de escravos e de terras, industriais e comerciantes que sempre se utilizaram da exploração e da imposição pela violência àqueles que trabalhavam para eles.

Quem era o povo? Ah, o povo, esse grande esquecido… Uma massa de gente a ser domesticada e manipulada para continuar servindo aos interesses dos “verdadeiros” donos do país e do poder e garantir que eles continuem com seus privilégios de elite. Uma gente superior, extraordinária e inteligente que sabe ganhar dinheiro e tem o dom de fazer a economia girar. Estou sendo irônica. Mas, ironias á parte, grande parte de nossa elite se abasteceu dessas idéias e continua com elas.

Tivemos a oportunidade de mudar isso no século passado por duas vezes, a primeira durante a década de 30 nos Governos de Vargas e a segunda por ocasião do Golpe Empresarial Militar de 1964, quando Jango foi deposto. Não conseguimos. Continuamos expostos a violência e a espoliação sem oportunidade de virar o jogo. Continuamos sendo massacrados e manipulados. Não aprendemos a lição. Não trabalhamos para mudar as estruturas formadoras de opinião nem fizemos nada para transformar a cultura dominante de violência na sociedade.

O que acontece quando os conflitos de classe são invisibilizados? O que a classe dominante criou em torno de si esse tempo todo? Ódio, ressentimento, revolta, entre outros sentimentos que foram por muito tempo contidos e mascarados. Por outro lado, na sanha de aumentar sua riqueza, seus bens, suas benesses e seu poder, a elite brasileira não se importou com o que poderia provocar na sociedade.

Muito do que provocou estamos sofrendo hoje, o ódio pelo ódio, a violência pela violência, sem nenhuma solução.  Aprendemos a ser reprimidos e a reprimir. A consciência de que precisamos tirar de dentro de nós o oprimido e o opressor ainda não aconteceu, com todo o trabalho que Paulo Freire conseguiu realizar nos fazendo refletir sobre isso. A força da colonização de nossa identidade é grande e está incrustada em nossa alma.

Saímos na década de 30 de uma civilização violenta, contida e explorada no campo para uma civilização violenta, contida e explorada nas cidades.

Empurrados e escondidos nas favelas, nos subúrbios e nas periferias o povo foi se arrumando e tentando sobreviver. Muita coisa aconteceu desde então.

Da década de 90 para cá a violência no Brasil se reciclou e se redirecionou. Não para a elite que continuou fazendo o que sempre fez antes, usar o Estado brasileiro para se locupletar, ter lucros e enriquecer. Mas, outros grupos passaram a ter parte mais atuante nesse jogo. A cumplicidade da classe média, aquela classe média que Marilena Chaui se refere em seus textos foi vital para que a desigualdade social permanecesse e se ampliasse.

Que luta de classes temos hoje no Brasil? A luta de muitos passou a ser para se ter poder e dinheiro a qualquer custo. As instituições estão cheias de pessoas desse tipo. Influência do capitalismo privatista, colonialista, individualista que a elite tanto estimulou, sempre com ajuda da mídia privada.

Quando em 2003 Lula ganhou as eleições, teve que mais uma vez fazer concessões para a elite. Teve que fazer isso para conseguir levar a frente o projeto de governo que todos estamos vendo fazer o Brasil crescer. Com isso diminuiu a desigualdade, tirou grande parte do povo da fome e da miséria e deu oportunidades a esse povo de estudar e trabalhar, através do estímulo a economia nacional. O que muitos não fizeram em 500 anos de Brasil, Lula fez.

Mas, a elite não poderia deixar isso acontecer por muito tempo. Seus privilégios serem derrubados para que o povo pudesse ter acesso as mesmas coisas que eles sempre tiveram? Foi nesse momento que se utilizaram de Roberto Jefferson e em 2005 criaram com ajuda da mídia e do judiciário elitizado o golpe do “Mensalão”. Naquele momento, os sindicatos foram para as ruas e o que poderia ter sido um golpe que deporia Lula e colocaria por terra todo o projeto de governo que estava sendo implementado não deu certo.

Mas, foi ali também que começou o processo de linchamento do PT, de suas lideranças e de sua militância. Naquele momento ninguém foi capaz de entender que o ovo da serpente estava sendo chocado. E nem que ele não só afetaria o PT como toda a esquerda. Só agora, depois de muito tempo, muito trabalho de formiguinha nas redes sociais e diretamente com a militância é que as esquerdas começaram a acordar.

Infelizmente houve grandes perdas. Lideranças qualificadas da esquerda foram colocados fora de combate. Grande retrocesso na Câmara dos Deputados e no Senado ocorreram com a eleição de lideranças comprometidas com grandes corporações empresariais, ruralistas e seitas religiosas fundamentalistas. Governos descomprometidos com o povo mais pobre continuaram a governar alguns estados onde governos progressistas poderiam estar.

Dilma ganhou a eleição mas, nós, da militância de esquerda estamos lutando contra o fascismo que se instalou na sociedade civil estimulado pela mídia golpista e atrelada aos partidos de direita. É como se tivéssemos vivendo o mesmo filme que muitos viveram em 1964. As mesmas estratégias violentas da direita. E muitos companheiros de esquerda ainda sem compreender o que acontece e outros sendo cooptados pelo desejo do poder.

É o colonialismo que ainda está potente em nossa subjetividade, minha gente! Sempre foi ele. Não adianta termos um projeto econômico e de desenvolvimento do Brasil se não continuamos a trabalhar a nossa formação cultural e social. O colonialismo ainda prospera em nossa sociedade de classes e faz vítimas o tempo todo.

Não basta expormos isso nas redes sociais. Temos que trabalhar junto com nosso povo, discutir seus problemas cotidianos, refletir com eles sobre história, economia e politica. Isso é que nos fará pensar, refletir e questionar as estruturas arraigadas do discurso binário da mídia e das elites.

Só a formação política é o que faz um povo ser mais consciente, mais corajoso e capaz de lutar por conquistas não somente imediatas, mas, por reformas que de fato possam transformar em definitivo a sociedade.

Só a formação política nos liberta dos demônios que criaram para nós e que nós continuamos cotidianamente a alimentar. Temos que limpar a sujeira de nossas memórias cheias de colonialismo e subalternidade para que definitivamente nos sejam retirados os grilhões que impedem que façamos o nosso país mais justo e soberano.

Mas, como iremos fazer isso na prática? Tudo está tão difícil… Ouço alguns companheiros que se dizem cansados…

Como ter cansaço diante das possibilidades de fazer nosso Brasil ficar melhor? Como capitular sem pensar no futuro dos nossos filhos, de nossos netos e bisnetos? Como desistir se já chegamos até aqui e pudemos fazer mais nesses doze anos do que foi feito em 500 anos? Como pensar em parar de lutar vendo tantos trabalhadores como nós sendo explorados, injustiçados, inferiorizados, violentados, assassinados?

Se lutamos pela democracia, pela igualdade na diversidade e pela justiça temos que ser o exemplo daquilo pelo qual lutamos. Nada é tão contagiante quanto o exemplo.

A luta de classes hoje está exposta. Não é mais invisível. Estamos diante da maior oportunidade de nossa história de mudar o jogo. Vamos vencer com paciência histórica, humildade para reconhecer os erros que tivemos no processo, resiliência para passar pelas crises sem fomentar violência, solidariedade e fraternidade na luta buscando aquilo que nos une e estratégia para organizar nossas fileiras sem vaidades pessoais.

Nossos adversários são fortes, grosseiros. violentos, reacionários, ignorantes, mas, não são deuses, por mais que tentem ser. Quanto mais ódio e violência eles demonstrarem contra nós, mais força moral teremos para mostrar seus equívocos.

A verdade irá prevalecer.  Não mais permitiremos o retrocesso. Não mais voltar para trás. Temos que nos libertar do casulo e ser como as borboletas, lindas e livres para voar para um destino glorioso. Vida nova de uma vez dessa vez…