Nem todos nós conhecemos a história da Rede Globo de Televisão. Existem livros e filmes que falam sobre o assunto, mas, até a internet tornar-se o que é hoje permaneciam bem longe do público em geral. Com a sua expansão nada mais pode ficar oculto. Ainda bem…

Recentemente conhecemos alguns crimes que foram cometidos pela  Globo denunciados pelo Blog O Cafezinho no que diz respeito a sonegação e evasão de divisas, onde soubemos que havia um processo contra eles, que havia uma criminosa financiada por eles que fez o processo sumir no judiciário, que eles foram notificados pela Receita mais de 700 vezes nos últimos anos, que o processo reapareceu mas, que no judiciário até agora  pouca coisa aconteceu contra a toda poderosa Rede Globo.

De onde veio tanto poder? De onde vem a certeza da impunidade contra seus crimes? Antes é necessário explicar como a Globo ganhou sua concessão de funcionamento no século passado.

Você sabia que o Brasil foi o primeiro país da América Latina a ter um canal de televisão e o sexto do mundo na década de 50 no Século XX? Foi Assis Chateaubriand que criou a primeira emissora de TV que se chamava Rede Tupi de Televisão, criada com recursos próprios e que posteriormente se tornou um conglomerado televisivo espalhado em todo Brasil. Seu pioneirismo fez história e abalou as estruturas da sociedade brasileira já que na época o Rádio era preponderante na comunicação.

Pois bem, a Rede Tupi de Televisão atingiu o ápice em termos de comunicação para a época, mas, quando Chatô (como era chamado Assis Chateaubriand) ficou doente, a rede começou a ter problemas financeiros. Chatô exercia controle completo sobre o financiamento do seu grupo de empresas e a TV era sustentada somente por patrocinadores no Brasil e após sua morte os problemas financeiros se aprofundaram, com uma colaboração de peso para sua destruição completa. O conluio da Globo com a ditadura empresarial militar.

Aliás, a Globo gosta de falar dos outros, mas, seu passado está cheio de ilegalidades. A TV Globo ganhou licença para operar em 1957. Em 1961, seus representantes assinaram um acordo com o grupo norte-americano Time-Life para cooperação técnica, comercial, administrativa e de programação, ou seja, colaboração irrestrita, acordo ilegal que violava as leis brasileiras da época. 

O acordo terminou formalmente em 1968, tendo sido denunciado pelos representantes da Rede Tupi e seus Diários Associados, mas, a Time-Life continuou a financiar a Rede Globo informalmente. A Comissão de Inquérito feita em 1966 para investigar o fato acabou em pizza, por intervenção dos militares golpistas. A Globo recebia financiamento ilegal do exterior e os militares fecharam os olhos para isso. Continuou recebendo e ampliando seu poder de comunicação.

A TV Tupi funcionava como o decreto ordenava. Mesmo assim, o mesmo decreto 236 de 1967 que a Globo desrespeitou, mas, não foi punida, foi utilizado em 1980 para cassar as concessões da Rede Tupi de Televisão, através da mesma pessoa, o General João Batista Figueiredo.  Este foi o preço pago por terem denunciado a associação do jornal ”O Globo” com o grupo americano. Este foi o preço também por serem independentes e não se aliarem em sua programação á doutrinação imposta pelo regime. 

Os favores da Globo aos generais golpistas foram, principalmente, a intervenção política através da TV, rádios e jornais na comunicação de massa como instrumento de intervenção ideológica, propagando a ideologia conservadora do golpe militar e dos empresários que se aliaram à ditadura.

Ou seja, enquanto as pessoas eram assassinadas, torturadas, exiladas pelo regime, a Globo através de suas ferramentas de comunicação impunham um padrão de cultura alinhado ao conservadorismo da ditadura e das classes dominantes empresariais. Veja que a Globo ajudou a incutir na mente das pessoas que o golpe, como ele realmente foi era uma revolução e que o comunismo era um problema que tinha que ser extirpado do Brasil. Até hoje tem gente que inadvertidamente chama o Golpe de Revolução e continua achando que “comunista come criancinhas”, por força desse doutrinamento feito ao longo dos anos pela Globo. Vimos isso se exacerbar nas últimas eleições em 2014.

história secreta da Rede GloboToda essa história está minuciosamente escrita numa dissertação de mestrado feito na Universidade Federal de Santa Catarina pelo Professor Daniel Heiz que se intitula “A história secreta da Rede Globo – SIM EU SOU O PODER – Roberto Marinho”, publicado inicialmente em 1983, com várias edições a partir de 1987, que coloco o link aqui em PDF para quem quiser conhecer melhor:

 http://idiarte.files.wordpress.com/2010/06/globo_historiasecreta.pdf.

Existe também um filme sobre a Rede Globo que foi feito pela BBC de Londres em 1993 que durante muitos anos foi proibido de ser exibido no Brasil.  A BBC de Londres é uma TV pública do Reino Unido que é um exemplo do que uma TV pública pode fazer. Veja o link:

Seria muito interessante que o Governo Federal trouxesse a tona na discussão da Regulamentação da Mídia, o papel do Congresso Nacional nessas concessões. Explico. Até a Constituição de 1988 era papel exclusivo do Presidente da República  dar e renovar as concessões públicas de Rádios, TV e Jornais. A partir de então o Congresso Nacional passa ser responsável também junto com o Governo Federal.

Pois bem, isso ao invés de trazer um maior poder de fogo da sociedade para a democratização das comunicações no Brasil, ao contrário, fez com que a ilegalidade continuasse existindo em maior âmbito, pois, muitos deputados e senadores se tornaram sócios nas empresas detentoras dessas concessões, apesar disso ser proibido pela Constituição, o que configura conflito total de interesses.

TV-Rede-Globo

O Brasil tem hoje 271 políticos que são sócios ou diretores de 324 veículos de comunicação. Ou seja, a ilegalidade que a Globo usufrui desde a ditadura continua por conta disso. Ela controla, ao todo, 340 veículos, divididos em 69 veículos próprios que distribui conteúdo por um sistema que inclui 33 jornais, 52 rádios AM, 76 FMs, 11 OCs, 105 emissoras de TV, 27 revistas, 17 canais e 9 operadoras de TV paga. Se você tiver interesse em conhecer mais consulte o site: http://donosdamidia.com.br/inicial.

Não dá mais para continuar assim… Temos que democratizar e regular as comunicações no Brasil. Sabemos que os obstáculos são grandes para isso, mas, a sociedade não aguenta mais ter sua cidadania pautada por esses veículos, com interesses comerciais e políticos-ideológicos alinhados com métodos e estratégias que a sociedade não tem controle.

E para começar a discussão, seria bastante salutar que a Rede Tupi de Televisão voltasse ao ar novamente, de maneira regular. Afinal, a ilegalidade que foi alegada para eles terem suas concessões cassadas na ditadura foi arbitrária. Aliás, seria interessante que as concessões da Globo fossem divididas em vários grupos, e que o Governo se apropriasse de alguns veículos por conta dos R$ 2,1 bilhões que eles devem à Receita Federal e parasse de vez de financiá-los.

Se em licitações em empresas estatais ou públicas as empresas que participam são obrigadas a serem isentas e sem dívidas com o Governo, como pode então a Rede Globo receber dinheiro do Governo devendo a ele?

Parece que o mal que a Globo fez está agora se voltando contra ela. Tivemos notícias de que em 2003 o fundo de investimento norte-americano Huff moveu processo contra a Rede Globo solicitando renegociação judicial de uma dívida vencida da Globopar no valor de US$ 94,3 milhões. Esse fundo de investimento Huff (Foundations For Research) , credor de US$ 175 mil é apenas um dos três credores que entraram com pedido de falência da Globopar (Globo Comunicações e Participações). Os outros são o GMAM Investment Funds Trust I (credor de US$ 30,5 milhões) e  o WRH Global Securities Pooled Trust (credor de US$ 63,6 milhões). O processo está rolando e a Globo só consegue através de recursos adiar problemas.

O que aconteceu com a Rede Tupi e os Diários Associados em 1980 por culpa da Globo pode agora acontecer com ela? Será que vamos ver isso? A toda poderosa Rede Globo de Televisão está com seus dias contados, passando pelos mesmos problemas que fez sua concorrente passar? O tempo dirá! E esperamos sinceramente que não seja tanto tempo. Não queremos jornalistas desempregados, mas, queremos jornalistas trabalhando em veículos progressistas, que sejam críticos e isentos para tratar os problemas do nosso país.  O debate tem que começar já. Que Berzoini possa trabalhar bastante nesse sentido e que as providências para regulação e democratização possam acontecer logo, ainda esse ano no mandato da Presidenta Dilma Rousseff.