Ando procurando por algum lugar onde ficou o senso de humanidade e de justiça de algumas pessoas aqui no Brasil.

A solução mais fácil anda na moda nos últimos tempos. Mata! Esfola! Prende! Arrebenta!

Já escutei isso em outros períodos dos meus 53 anos de vida no Brasil. Foi num período que jamais pensei teria que passar de novo. E ele está vindo com roupagens novas e velhas misturadas e integradas.

Muitos que defendem a Maioridade Penal aos 16 anos e se rejubilaram ontem com a manobra de Eduardo Cunha não sabem o quanto essas soluções fáceis de punição e aprisionamento de menores não são solução. A forma ditatorial com que ele agiu lembra o coronelismo do século passado. E muitos aplaudiram isso! O escárnio com nossa democracia e o atentado contra nossa juventude.

Triste país que não sabe resolver os problemas sem encarcerar seus jovens! Triste povo que não tem cidadania e se deixa levar pela opinião publicada de gente que só quer ganhar dinheiro às suas custas.

Estou muito triste pelo que está acontecendo no meu país. O ódio, a falta de respeito, a falta de civilidade e de cidadania estimulados pela mídia corrupta e sonegadora estão contaminando muitas mentes e corações.

Nara Rúbia Ribeiro no site Conti Outra narra uma história que quero compartilhar aqui. É a história real de um menino e um juiz. Como a história desse menino poderia ser contada se o Estado e os adultos que o conceberam tivessem lhe dado as oportunidades que merecia?

Quando peguei o documento que relatava os antecedentes do adolescente, fiquei impressionada. Dezoito processos se acumulavam nas prateleiras daquele Juizado da Infância e Juventude. Furto, roubo, lesão corporal, ameaça, e mais furto e mais roubo. A lista de condutas praticadas por ele que são descritas, pela lei, como “crime” era, de fato, muito considerável.

É um daqueles casos em que olhamos para o adolescente com total desesperança, sem conseguir deixar de lado o olhar de desaprovação. Um jovem estudante de Direito chegou a comentar: “Num caso desse, só matando”. O que ele não sabia é que aquele adolescente já havia morrido há, pelo menos, 11 anos.

Aquele “bandidinho repugnante”, assim se referia a ele uma das vítimas, “é um lixo, Doutor, ele fede. Isso nem é gente”, fora abandonado pela mãe quando tinha apenas 6 anos de idade. Deixado nas ruas de uma cidade com cerca de 300 mil habitantes, num semáforo. Segundo me disseram, a mãe foi morar com um senhor que, embora tivesse o bom senso de sustenta-la, não aceitava o menino.

A partir de então, essa criança cresceu na rua, praticando favores sexuais aos meninos maiores em troca de alimento, furtando uma coisinha aqui e ali. Sofreu toda sorte de abusos, toda forma de violência que se possa imaginar.

HISTÓRIA REAL 1

A nossa Constituição Federal estabelece que é dever da família, do Estado e de todos nós, a “sociedade”, fazer com que cada uma de nossas crianças tenha os seus direitos integralmente garantidos.  Mas parece-me que esse discurso não é muito popular.  Nas recentes eleições, não percebi qualquer séria discussão sobre políticas públicas de amparo a crianças e adolescentes que necessitem de proteção e cuidados específicos do Estado. Vi, com sangue nos olhos, diversos candidatos destilarem seu ódio pleno aos menores infratores, falando na necessidade de penas duras e redução da maioridade penal.

Mas ninguém fala (será por quê?) em prender quem passe de olhos fechados diante dessas inúmeras crianças e adolescentes abandonados à própria sorte,  cuja  vida só ensinou sentenças de dor, de morte e de revolta íntima.

A testemunha, então, verberou:

-“Doutor, tem que prender esse troço. Não dá pra andar na rua seguro com isso  solto, não. Daí perguntei:

– Ele ameaçou o Senhor de que jeito?

– Colocou a mão dentro da blusa, Doutora. Falou que se eu não obedecesse eu ia me dar mal.

– E o que ele exigiu do Senhor, pode dizer? Ele queria o quê?

– Sim, Doutora. Ele queria água e comida.

Senti uma imensa vontade de rasgar o papel com os antecedentes do menino. Aquele papel não servia à condenação ou à absolvição dele. Aquele papel condenava a todos nós. Documento inconteste da hipocrisia do mundo e da precariedade, da inconsistência de uma palavra tão recorrente na boca dos “cidadãos honestos”: justiça.