Sou uma mulher militante e como tal faço perguntas todos os dias sobre várias questões relacionadas ao meu cotidiano de trabalho e de vida que se relacionam com ações dos Governos Municipal, Estadual e Federal. Quem acha que o trabalhador ou a trabalhadora não faz essas relações está equivocado em sua análise e ajuda a mídia golpista a espalhar o terror sobre muitas questões na sociedade.

O trabalhador e a trabalhadora discutem política o tempo todo, fazem análises e relacionam fatos. O grande problema é que são poucos os sindicatos que hoje fazem o trabalho sindical de base, mediando essas relações e análises que eles fazem com diálogos construtivos e abertos. Temos que compreender que temos responsabilidade nisso e fazer a nossa parte, construindo debates e estimulando uma participação maior do trabalhador e da trabalhadora na sociedade em que vive. Só a experiência conjunta e a comunhão de idéias pode transformar as pessoas e a sociedade em algo melhor.

Não é a toa que o sistema capitalista privilegia o individualismo. O individualismo separa as pessoas, torna-as competitivas, reativas e agressivas. Mata sua humanidade. Boicota sua capacidade de cooperação e seu senso de coletividade. Embota sua cidadania e as transforma em seres sem consciência de classe, sem senso de justiça, sem força social.

Não é a toa que no Brasil ainda não temos democracia e liberdade nos meios de comunicação. A máxima que os oligopólios de mídia controlados por seis famílias e por políticos de direita difundem é que esse Governo quer censurar as comunicações. Entretanto, o que temos hoje, na verdade? Uma imprensa dominada por uma única visão de mundo, onde os lucros estão acima das pessoas e os governos servem para gerar mais lucros para essas corporações independente do que façam pelo povo.

É por isso que defendemos que a democratização desses meios nos proporcionariam fontes seguras e rápidas de informação com um maior controle da sociedade sobre o Governo e sobre as grandes corporações e consequentemente sobre a corrupção, sonegação e outros crimes contra o povo.  Não é a toa que os oligopólios de comunicação não querem a democratização e regulação do ramo. Diversidade de pensamentos e democracia não interessa a eles, muito menos o controle cidadão que pode ser exercido através da fiscalização das contas e da participação social efetiva em audiências públicas, em comitês de participação por meio da transparência na informação de dados e fatos.

Digo isso tudo para afirmar que ao mesmo tempo que apoio o Governo Dilma e tudo que foi feito até agora pelos Governos do PT, tenho também o direito de questionar, criticar e buscar explicações do que o Governo está fazendo do apoio que eu dei a ele. Não se trata de maniqueísmo barato, mas, de debater os problemas que nos atingem e atingem o Governo que aí está. A comunicação do Governo está ruim não é de hoje e nós, das redes sociais é que temos feito o contraponto. Entretanto, as mudanças não acontecem.

Daí que tenho obrigação de fazer perguntas, de questionar sim a Presidenta e seus Ministros. Eu e muito estamos nas ruas, nas instituições e nas redes sociais defendendo esse projeto político que aí está. Mas, como realmente ele está hoje? Vamos deixar de refletir e pensar a política enquanto possibilidade de transformação da sociedade só para dizer que Dilma está certa? A mudança na sociedade diz respeito somente a uma defesa de gênero? Sou mulher e então vou passar a mão na cabeça da Dilma porque como mulher ela está sendo cobrada e injustiçada pelos meios de comunicação? Temos que dar nosso apoio incondicional sem apontar caminhos? Não podemos criticar o que estamos vendo como um desvirtuamento do projeto político que elegemos?

Não, não acredito nisso. O partido ao qual pertenço é um partido democrático onde a diversidade de idéias sempre foi respeitada. Não acredito sequer que Dilma defenda o unilateralismo político. Somos vozes múltiplas e dessa forma temos que falar sim o que pensamos para que Dilma tenha condições de absorver o que queremos enquanto militantes e enquanto classe trabalhadora. Então, como José Dirceu estou aqui para apoiar mas, também para questionar e dizer que ambas as posições são possíveis.

Os questionamentos que foram feitos ao Governo Dilma por Zé Dirceu são pertinentes e importantes. Gostaria que mais vozes como a dele pudessem estar no Governo para fazer as perguntas que precisam ser feitas para que ações mais efetivas fossem tomadas. Vejam o que ele questiona num texto que vem sendo criticado por muita gente:

“A questão é: que respostas o governo dará a crise hídrica e energética? Mobilizará o país, os ministros, para enfrentá-la? Proporá novas medidas sobre o ajuste fiscal? Falara ao país da gravidade da crise mundial e das mudanças que pretendemos a médio prazo em nossa economia? Proporá uma reforma tributária? Qual nosso caminho? Vamos para Berlim ou Atenas? Qual é nossa proposta de mudança radical na política de segurança pública frente a crescente violência urbana retratada de forma trágica nas 16 mortes por balas perdidas –  que de perdidas não têm nada? Vamos mobilizar os governos federal e estaduais e iniciar uma nova política de segurança?”

Ao ler as críticas feitas por muitas mulheres a esses questionamentos feitos por Zé Dirceu nas redes sociais fiquei pensando se realmente colocamos em prática aquilo que dizemos no discurso.  Acho que está faltando muito mais ação nossa e do Governo para que as transformações aconteçam. Não vejo nas ruas o mesmo número de pessoas que discursam nas redes sociais. Vejo Dilma apanhar demais, ser condenada de todas as formas pela mídia, com poucos suspiros de defesa nas ruas. A indignação de classe e de gênero tem que ser feita na mobilização da sociedade e não no discurso contra ou a favor nas redes sociais. É muito fácil ser revolucionário num site, num blog ou no Facebook.

E quando digo isso me refiro a você, a mim e ao Governo. Temos defendido a presidenta nas redes e alguns de nós também nas ruas e nas instituições, mas, sinceramente, a própria presidenta e sua equipe de ministros desmobilizam nossas ações quando dão mais atenção aos interesses dos partidos coligados e daqueles que sempre governaram o Brasil e fecham os olhos para desmandos e fisiologismo desses mesmos partidos. Quando deixam que a mídia minta, mascare e conduza o governo, financiando as pedradas que lhes são jogadas. Quando deixam que a PF faça politicagem ao invés de investigar seriamente. Quando cortam benefícios dos trabalhadores ao invés de taxar os ricos. 

Que governabilidade afinal Dilma está buscando? Não se consegue agradar a gregos e troianos… Ceder como está cedendo em nome da governabilidade pode ser uma grande burrice, pois, a direita jamais cede em seus interesses e sempre irá combater de todas as formas os projetos e programas do PT e da Presidenta. Estamos vendo isso na atuação de vários ministros. Vimos isso agora com a vitória de Eduardo Cunha na Câmara Federal.

Quando ganhamos as eleições, vi nos olhos de muitas pessoas do campo da esquerda a esperança de que Dilma pudesse de fato levar o mandato com garra para fazer as grandes reformas. Muita gente que nunca mais tinha visto na rua, apareceu e lutou para que ganhássemos as eleições. E agora, com várias sinalizações da presidenta muita gente está murchando, de novo…

Será possível que o Governo ainda não aprendeu que é preciso governar com a parceria e apoio de quem de fato está do seu lado? Do jeito que a coisa vai indo, Dilma, que nunca teve o apoio real do PMDB e de outros partidos aliados, vai acabar ficando sem o apoio também da esquerda que a elegeu. As esquerdas no Brasil continuam desunidas e fazendo o jogo da direita. Quando tem críticas, se omitem e se combatem. Não participam e se acovardam diante das dificuldades e das soluções que deveriam ser colocadas em prática por todos, governo e sociedade.

Com isso um círculo vicioso se forma. Sem apoio das ruas a presidenta não irá conseguir fazer muito além do que já está fazendo… Estamos vendo a esquerda da Europa colocar milhões nas ruas contra as medidas adotadas pelos governos de direita de lá, e aqui, que temos a esquerda no poder não conseguimos garantir a governabilidade de Dilma e apoiar os projetos importantes para a sociedade? Afinal, o que queremos? Podemos ou não fazer do nosso discurso a prática?

Assim, apesar de saber que eu sou apenas uma militante de esquerda, sindicalista e mulher e que minha voz não será ouvida por muita gente e poderá até ser criticada por muitos eu tenho que dizer. Temos que tirar as nádegas das cadeiras da burocracia, calar os egos inflados, espantar a preguiça e ir com força para as ruas. Questionar é preciso! Refletir é preciso! Mas, acima de tudo temos que aprender a participar enfrentando nossos medos e encarando nossas diferenças com fraternidade e solidariedade. Afinal,  lutar pelos nossos sonhos de um Brasil diferente, mais justo, mais igualitário, mais humano é ou não é importante? Para mim é primordial que todos nos unamos nesse momento! Com questionamentos e críticas mas, participando junto com a Presidenta do seu governo.

Para quem não sabe para onde quer ir, qualquer lugar serve. Será que queremos para o Brasil um retrocesso? Eu não quero, e vocês? Não me respondam, respondam às suas consciências e vamos à luta! Eu acredito nos trabalhadores e trabalhadoras do Brasil!