Tenho escutado muitas frases eivadas de preconceitos, que jovens que chegam ao mercado de trabalho em grandes corporações recitam em versos. Recentemente ouvi algumas:  “Todo sindicalista é ignorante! Sindicalista não trabalha! Sindicalista é vagabundo! Sindicato só serve para comer meu dinheiro! Todo sindicalista é ladrão!”  

Incrível o quanto a generalização burra com que as grandes corporações midiáticas vem trabalhando à longo tempo serviu à manipulação da classe trabalhadora, seja ela mais ou menos escolarizada. Aliás, a escolarização de alguém não o credencia a ter consciência de classe ou consciência política. Isso é algo que depende e muito da história de vida da pessoa, a ideologia que viveu em sua infância e juventude, as escolas que frequentou e sua experiência nas relações de emprego que teve.

A mídia corporativa para defender seus interesses políticos e econômicos vem sendo bastante competente para formar a opinião de muitos desses jovens que até então só tinham como canal de informação os jornais e telejornais. Até porque durante vários anos a escola pública e mais ainda as privadas, bem como as universidades não foram suficientemente capazes para trabalhar a história do Brasil, por conta da falta de elementos históricos e políticos que pudessem ser abordados e também pela própria sonegação de informações reais sobre o Brasil e as instituições que o período ditatorial tirou de todos nós.

A mídia também popularizou jargões que simplificam e criminalizam ações e atos: A expressão “Todo político é ladrão!”  é ótima para passar a mensagem de que existe uma classe de pessoas diferenciadas que “fazem política” e que todas elas são iguais. Além disso, outra mensagem passada é de que:  “pessoas de bem e pessoas normais não participam da política e nem de partidos políticos”.

Assim também o é com os sindicatos e com os sindicalistas. Os trabalhadores mais novos não procuram conhecer o sindicato, não participam das lutas, não vão às assembleias, não leem as mídias do sindicato,  reclamam de tudo e de todos e sequer são capazes de conhecer e investigar o currículo, a vida e o trabalho dos dirigentes sindicais. Expressam com bastante eficiência o bordão da velha mídia de que todo mundo nesse país que está do lado dos povo é ladrão.

As corporações multinacionais e os governos de direita fizeram, através de sua aliança com empresários colonialistas um bom serviço financiando a mídia corporativa para que ela pudesse reproduzir através da TV e jornais os comportamentos e atitudes que lhes são úteis economicamente. Afinal, a imprensa é também um negócio corporativo. Empresários de todos os ramos fazem política o tempo todo para defender seus interesses e para que possam fazer isso, vendem através da mídia velha o discurso de que todos os outros que o fazem são criminosos e bandidos.

E alguns trabalhadores, infelizmente, acabam entrando nessa onda e generalizando também, sem entender que as instituições são o que fazemos delas e que a participação democrática é que de fato pode fortalecer e melhorar cada vez mais o trabalho a ser feito.

Um dia desses um trabalhador me abordou e disse que tinha visto meu currículo na internet e que ficou admirado. Como uma pessoa tão estudada e tão qualificada” quanto eu podia ser sindicalista? Ao mesmo tempo me deu uma bronca e me falou que eu tinha que dizer para todo mundo que eu era professora de pós graduação, mestra em educação, pedagoga e relatar cada curso de especialização e extensão que fiz, pois, isso faria com que as pessoas me conhecessem melhor e isso faria com que elas respeitassem mais o sindicato e se sindicalizassem.

Fiquei estupefata! Essa turminha jovem acha que só escolaridade credencia alguém para representá-los. Sou pedagoga e acredito na educação como um bem acima de qualquer preço, mas, daí a achar que para ser um bom sindicalista, defender e lutar pelos trabalhadores é preciso ter nível superior e pós graduação vai uma grande diferença. Quem conhece a história recente do Brasil sabe! FHC não fez nada pela educação no Brasil, já Lula criou várias universidades e várias escolas técnicas. Quem fez mais pela educação? Lula, claro! Não precisou ter curso universitário para isso. O preconceito em relação aos fatos faz um grande mal ao país e suas instituições.

A representação política, seja ela qual for, no sindicato, no parlamento, no executivo, nos movimentos sociais, nas empresas é tarefa de homens e mulheres conscientes de seu papel na vida e na história, e consciência não se aprende na escola ou na universidade, aprende-se participando dos erros e acertos, das conquistas e derrotas, das oportunidades e infelicidades. Consciência se aprende na luta, participando dela.

CUT Rio - Trabalho decenteO mito de que só alguns podem e os outros não tem condições acabou com a simbólica eleição de Lula e tudo que ele conseguiu fazer para ampliar os direitos da classe trabalhadora no Brasil.

Agora, a internet vem nos dando condições de mostrar a realidade, o contraponto, as contradições e argumentos falsos que vem sendo há anos pregados. Bendita internet!

Chegou o momento de desmistificar os preconceitos de uma vez por todas.

A participação política é tarefa de todos nós, estejamos ou não em instituições representativas. O sindicato assim como qualquer movimento político e social é credenciado pela luta e pelo trabalho que realizou e realiza pelo coletivo. Temos que terminar de vez com o discurso único da direita de que as instituições formadas pelos trabalhadores não servem para eles. Mais do que buscar uma mudança da sua vida social através da participação nas instituições democráticas, muitos trabalhadores se enxergam somente como um pedaço da corporação em que trabalham. Uma visão pobre e limitada que facilita o desenvolvimento de uma subjetividade individualista e reacionária.

Ser sindicalizado, ir ao sindicato para conversar com seus representantes, participar das assembleias, ler os informativos, participar das lutas realizadas, ajudar a traçar estratégias de desenvolvimento dessas lutas é essencial para ganhar experiência de cidadania. Precisamos de menos trabalhadores preocupados somente com o salário que vai ganhar no fim do mês e de mais trabalhadores preocupados em melhorar seu bairro, sua cidade e seu estado. Precisamos de mais trabalhadores comprometidos com a cidadania que trabalhadores que querem puxar o tapete dos outros.

É por isso que me sinto orgulhosa do que faço! Sou sindicalista sim e não nego meu sangue, minhas raízes, meu trabalho, meu país! O sindicato foi o grande caminho que me ajudou a entender que nada na vida é possível ser conquistado sem a nossa participação efetiva.

Espero que alguns jovens trabalhadores que ainda não conseguiram perceber isso se esclareçam e consigam se engajar também nessa luta. O sindicato como todas as instituições onde existem seres humanos tem problemas. Mas, o que seria de nós pobres mortais sem problemas para exercitar a inteligência e nossa capacidade criativa? Nada!

Só a participação política coletiva irá mudar nosso futuro! Que você, jovem trabalhador possa assumir sua tarefa histórica! Ouse, sonhe e transforme seus dias! Você é muito melhor do que pensa…